quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Fragmento de

A vida na hora.Cena sem ensaio.Cabeça sem reflexão Conro “A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão. Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável. De que trata a peça
devo adivinhar já em cena. Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação. 
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis. Não dá para retirar as palavras e os reflexos, inacabada a contagem das estrelas, o caráter como o casaco às pressas abotoado – eis os efeitos deploráveis desta urgência. Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço. Isso é justo – pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores). É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo. 
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça, vai se transformar para sempre naquilo que fiz.” Extraído do livro Poemas, de Wislawa Szymborska, Companhia das Letras

Quando o encontro é transformador...

Fragmento do livro: Amyr Klink – não há tempo a perder, p.129 Já passei por muitas crises. Não apenas em alto mar. Como todo mundo vivi situações de intensa tristeza, ou períodos mais prolongados de dificuldades financeiras, enfrentando problemas pessoais e familiares. São nesses momentos de extrema agonia que é mais difícil e necessário não perder o controle da situação. Ao tentar sair da crise podemos aguçar nossa criatividade. Existem inúmeros exemplos de surtos de criação artística, científica, em momentos de opressão econômica ou política, como nos anos 1970, quando a música popular brasileira deu um salto de inovação para superar a censura imposta pela ditadura militar. Em momentos terríveis, em que você precisa inventar uma solução, você inventa.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Fragmento de Poemas jamais escritos - Zélia Bora

Entorpecida estou por uma espécie de loucura... Eis o meu destino. Acordo no meio da noite e caminho pelo quarto escuro. Tenho sede e a subsitência de minha vida vive dessa memória povoando o meu ser em forma de agonia. De Heloísa para Aberlardo Poemas jamais escritos Zélia Bora pg.34 (2008)

E depois de uma tarde de quem sou eu - Clarice Lispector

E eis depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma madrugada ainda em desespero - eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei.(...) Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar. [Eu sei o que faze em seguida, mas por enquanto](...)Olha para mim e me ama. Não:tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Minha escola

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário; Complicado como as Matemáticas; Inacessível como Os Lusíadas de Camões! À sua porta eu estacava sempre hesitante... De um lado, a vida... A minha adorável vida de criança: Pinhões... papagaios... carreiras ao sol... [...] Do outro lado, aquela tortura: “As armas e os barões assinalados! ” - Quantas orações? [...] Felizmente, à boca da noite, Eu tinha uma velha que me contava histórias... Lindas histórias do reino da Mãe D'Água... E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.
(FERREIRA, A. Poemas de Ascenso Ferreira. 5. Ed. Recife: Nordestal, 1995, p. 41).

Mário Quintana: "Emergência"

Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo – para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.
QUINTANA, Mário. "Emergência". In: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

O cataclismo e as canções Conceição Lima - O país de Akendenguê

Feliz o que de mim restar, depois de mim Se uma só das canções cantadas Viver além daquele que em mim agora canta Da hecatombe não salvaria contudo Uma só das canções que cantei e canto. Às entranhas do olvido Antes roubaria o riso das crianças E a idade do provérbio. Assim aos vindouros Intacto ofertaria o enigma da luz.
Conceição Lima - O país de Akendenguê

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Uma definitiva presença

Ela entrava na escola abraçando os nossos cadernos Avante. (A sala tinha cheiro de roupa lavada. Tudo limpo como água de mina e o mundo ficava mudo para escutá-la. Sobre a sua mesa pousava uma jarra sempre com flores do mato que os alunos colhiam pelo caminho.) Ao abraçar os cadernos era com se a professora me apertasse sobre o seu coração, perdoando, com antecedência, os meus erros e acertos. Eu ainda não lia ou escrevia de “carreirinha”. Mas seu olhar foi o meu primeiro livro! Ela me acariciava com seus olhos e derramava sobre mim uma luz mansa de luar, capaz de alvejar meu desejo obscuro de aprender. Seus olhos me permitiam a liberdade. Sua presença inteira me trazia uma paz azul e uma certeza de que o futuro era possível. É que dona Maria Campos levava nossas composições, ditados, cópias, para corrigir em casa. Eu morria de inveja do meu caderno por saber que ele conhecia onde a professora vivia. Seu lápis, metade azul e metade vermelho, bordava em nossos trabalhos as notas que iam de 0 a 10. E trazia sempre uma observação: “muito bom”, “parabéns”, “ótimo”, “mais atenção”, “é preciso estudar mais”. Eu recebia meu caderno com o coração descontrolado. Parecia que uma borboleta tinha vindo morar em meu peito. Tinha medo de não corresponder aos seus ensinamentos. Não queria que a professora deixasse de me amar. E como dona Maria Campos sabia! Para tudo ela tinha uma resposta ou outra pergunta na ponta da língua. Dava aulas como se estivesse recitando uma poesia feita de água, névoa ou nuvem. Eu achava minha professora mais bonita que os poemas. E não era difícil decorar os versos e repeti-los depois, no escuro do meu quarto. Guardava tudo de cor sem esforço. E quando ela pegava no giz branco e passava o ponto, no quadro-negro, eu mordia a ponta da língua esforçando-me para imitar sua escrita. Ela fazia as letras tão bonitas que não me bastava apenas copiar: eu desejava aprender também a sua letra. E como me emocionavam aqueles “eles” como orelhas de coelho espantado. Em meus momentos de calma eu enchia páginas e páginas com seu nome, o nome de minha mãe, de meu pai, de minha escola. Era minha maneira de ter sempre dona Maria Campos ao meu lado. E quando escolhido para passar o ditado no quadro, para os colegas corrigirem o deles, mais eu caprichava na letra. O difícil era o quadro não ter linha, pois seguir em linha reta, sem estrada, dependia também do olhar. Mas para alegrar a professora toda dificuldade era pouca. Se ela elogiava, eu baixava a cabeça. Por fora muita vergonha e por dentro um herói. Nas horas de leitura em voz alta eu não media esforços. Cada menino lia um pedaço. E a professora escolhia alternado. Ninguém sabia sua hora. Eu acompanhava as linhas do livro com o dedo. Cheio de medo e desejo esperava minha vez. Lia devagar cada palavra, obedecendo à pontuação, controlando o fôlego. Dona Maria Campos dizia que nas vírgulas a gente respirava e no ponto final dava uma paradinha. Mas o melhor era quando ela nos mandava guardar os objetos. A gente fechava o caderno, guardava o lápis e a borracha dentro do estojo e esperava com os braços cruzados sobre a carteira. Assim, ela continuava mais um pedaço da história. Parecia com a Sant´Ana da capela com o livro no colo. Eu não acreditava que podia existir outro céu além da nossa sala de aula. Ficava intrigado com num livro tão pequeno cabia tanta história, tanta viagem, tanto encanto. O mundo ficava maior e minha vontade era não morrer nunca para conhecer o mundo inteiro e saber muito, como a professora sabia. O livro me abria caminhos, me ensinava a escolher o destino. Eu pedia o livro emprestado, depois que a dona Maria terminava. Levava para casa e brincava de escola com meus irmãos menores. Assentava com o livro, com pose de professor, e lia para eles. Era difícil guardar tanta beleza só para mim. Não sei se gostavam de leitura ou se imaginavam, um dia, serem alunos de minha escola. Meu pai, assentado na escada da casa, prestava atenção na minha leitura, de maneira despistada. De noite, antes de dormir, curioso, ele queria que eu adiantasse um pouco mais da história. Mas eu não contava. Sabia que imaginar fazia parte da leitura. Fragmento: Contos e poemas para ler na Escola Bartolomeu Campos de Queirós.

Coragem e liberdade

Descobri que a aba que protegia a caixa de correios servia para me impulsionar a subir no muro da casa. Quando precisava chegar um pouco mais tarde, deixava a porta da biblioteca aberta, subia pela aba da caixa dos correios e subia no muro, depois alcançava o telhado da garagem que dava acesso a varanda da biblioteca. Literalmente, conseguia minha liberdade por meio do muro, da caixa dos correios e a porta da biblioteca. Papai colocava um sininho na porta para despertar descobrir que horas eu chegava em casa, às vezes, eu amarrava o sininho e ele descobria. Ele não dizia nada e eu muito menos. Quando se tem uma matriz indígena, não brigamos, apenas não obedecemos. Tudo isso para ficar um pouco mais com xs amigxs e burlar o horário determinado para minha chegada que nunca poderia passar da meia noite. Depois fotografo para vocês terem ideia da minha ousadia. É muito difícil ser mulher, se era na minha geração, imagina na geração da D. Lourdes. Ana Raquel França

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Fragmento de Cabral de Melo Neto

É difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, Severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva; e não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica. Vida e Morte Severina João Cabral de Melo Neto

sábado, 13 de março de 2021

Tenho um mar - Thiago Soeiro

Tenho um mar quando a gente segura um choro é como se segurasse o mar inteiro e é tão difícil segurar o mar às vezes sinto ele agitado revolto em meus pensamentos fazendo ondas em minha cabeça já me afoguei nele algumas vezes e deixei naufragar alguns problemas tenho um mar em meu peito e convivo com ele e todos os seus seres marinhos criaturas que ainda desconheço em uma vida repleta de mistérios e medos seguro o mar em meus dedos e toda fúria dos dias de tempestade e toda a calmaria dos dias de sol e sei que ninguém nunca desconfiou disso que eu era feito de mar que tenho corais em meus pés peixes em minhas costas que tenho o mar inteiro preso em meus olhos prestes a transbordar.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Salva-vidas de Thiago Soeiro

SALVA-VIDAS o poema é meu salva-vidas é nele que me apoio no alto mar das mágoas nas tempestades de angustia que o vento às vezes me traz quero me segurar nele por toda a vida ser ouvido sentido constantemente salvo do afogamento deus ouve os poemas assim como as orações. Poemas: Thiago Soeiro

terça-feira, 2 de março de 2021

A origem do poema - Pedro Stkls

a flor murcha é inexplicável quando formigas comem seus restos e fazem isso em total silêncio não rezam não cantam comem seu microcosmo como se fosse uma tarefa de floração para o reino as partículas de flor em cima das formigas significam que a primavera logo chegará não tem a ver com morte tristeza vazio olhos alagados quer dizer que é assim que nasce um poema socando bem na nossa cara o invísivel um mundo de coisas que a gente não sabe abraçar. Poesia: Pedro Stkls

segunda-feira, 1 de março de 2021

Luar - Pandemia de 2021

Recebendo visitas

Pés na água

Mar na Pandemia - fevereiro de 2021

Mar na Pandemia - fevereiro de 2021

Tardes

Affonso Romano de Sant´Anna Deus botou tardes na minha frente para me advertir, paralisar. Sabe que sou fraco(a) e não desisto a um certo modo cromático de ser. Deus botou essas tardes na minha frente Para me ferir, me extasiar. Às vezes me distraio. Deus insiste: põe as tardes de novo em minha frente para que eu aprenda a morrer.

O gato

O gato chega à porta do quarto onde escrevo. Entrepara...hesita...avança... Fita-me. Fitamo-nos. Olhos nos olhos... Quase com terror! Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente. Mario Quintana In: Preparativos de Viagem <

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Trecho de entrevista com Picasso


Trecho de entrevista com Picasso:
- "Por que vc dança?
- N há um 'porquê', eu danço.
- Vc é um artista plástico que dança?
- Sim, ou um dançarino q pinta, o q vc preferir.
- Desde qdo vc dança?
- Desde sempre.
- No q vc pensa qdo dança?
- Eu n penso, eu sinto.
- Sente o quê?
- Amor.
- Amor?
- Sim.
- Mas, por quê?
- N há um porquê para o amor.
- Sente algo mais?
- Vida.
- Como assim?
- Alguns, apenas alguns, fazem nesta terra aquilo para o qual foram criados. Esses vivem. Outros sobrevivem... Quem dança, vive.
- A dança é algo essencial?
- Respirar é essencial? Respondi sua pergunta primária?
- Mas há um preço por essa escolha...
- Por dançar? Sim, há.
- É caro?
- N importa.
- Vc pagou este preço?
- Ainda pago.
- Vc deve dançar para alguém...
- Tb, quero dizer, n só pra alguém ou por alguma razão. Vc dança porque nasceu para dançar, assim como pinta porque os quadros já existem dentro d vc, vc apenas os liberta...(...) Uma formiga faz seu trabalho sem questionar, pássaros voam sem questionar, peixes nadam... homens, alguns matam, outros preferem fazer aquilo para o qual foram criados: AMAR. Eu danço, pinto , amo.
- Vc dança sempre?
- Só qdo amo.
- Qdo vc ama?
- Qdo danço.
- Quer dançar comigo?
- N sei, n sei se tenho coragem... tenho medo.
- Entendo, eu assusto mesmo, eu danço."

(Roubado de Luiz Gustavo)

Alice Carroll

May be an image of 1 person

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O Elefante

 

Quando eu era criança, minha avó me contou uma fábula dos cegos e o elefante.

Três cegos estavam diante do elefante. Um deles apalpou a cauda do animal e disse:

-É uma corda.

Outro acariciou uma pata do elefante e opinou:

- É uma coluna.

O terceiro cego apoiou a mão no corpo do elefante de adivinhou:

- É uma parede.

Assim estamos: cegos de nós, cegos do mundo. Desde que nascemos, somos treinados para não ver mais que pedacinhos. A cultura dominante, cultura do desvinculo, quebra a história passada com quebra a realidade presente; e proíbe que o quebra-cabeças seja armado.

Eduardo Galeano(1990)


                                      Foto: Pinterest





domingo, 7 de fevereiro de 2021

O amor como fermento de Ressurreição

 

O amor como fermento de Ressurreição

O amor perfeito não é aquele que ama a todos e a tudo por causa de Deus (propter Deum) ou em Deus (in Deo), mas aquele que a tudo e a todos ama porque descobre a amabilidade de tudo e de todos como presença concreta do próprio amor de Deus.

A Graça Libertadora no Mundo

Leonardo Boff


pinterest.com


O mundo - Eduardo Galeano

 O mundo


Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
— O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano O Livro dos Abraços.
Foto: pinterest.com

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Fragmento: Ler, escrever e fazer conta de cabeça.

 

“A casa ficou maior e cheia de silêncio. Tudo parecia se esforçar para não acordar quem deveria dormir por toda a vida. O vazio ocupou, tanto, o quarto da minha mãe que meu pai dormia na beiradinha da cama, como se empurrado pelo novo morador. E o vazio não nos deixava tocar em nada. Tudo – o santo da parede, latas de talco, vidros de perfume, caixinhas de desmazelos, imagem na beira da cabeceira – tudo ficava no mesmo lugar por exigência do vazio. No nada cabe tudo. Até a poeira marcava a retirada de qualquer pertence”.

Bartolomeu Campos de Queirós



sábado, 9 de janeiro de 2021

Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar. Amor pra mim é ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo.

Adélia Prado

Reza



Pedro Stkls

começar um poema perdido na maré
começar a achar que do outro lado
uma canoa me espera
e você achando que
vou indo lá me embora sem ti
quando sei que essas tuas águas
não me visitam mais
nem o teu breu de quarto
e aquelas tonturas de amor
talvez seja melhor colocar na mala
um cheiro de capim santo
e doses de alecrim
pra distrair o cheiro que você me arrumou
e que ficou guardado
eu não consigo esquecer
eu não consigo passar um café
sem antes passar nas memórias
que eu guarde para o dia do fim
e o fim é agora
é hoje
acho que me distraí no mangue
que vim rolando até aqui
com os joelho ralados
nem violeta com pião roxo cura
o que cura é você chegando
de canoe, zé
trazendo o peixe preu me distrair
só pra ouvir você dizer
que delicadeza! que senhora! que deusa"
eu só queria te dizer
que eu aprendi que o infinito
é o mesmo que um rio de estrelas
não se acaba assim
por que ir se aqui ainda tem tanto amor?
tem a lida o cuidar com os bichos
tem à noite a luz da lamparina
tem agora meu coração
que passa frio
você é um sujeito-saudade
coisa de vento que só toca a gente
aqui dentro de mim
você é um peixe que nada
e eu não sei disfarçar
eu te ponho no meu potinho de açúcar
e da nada adiante
eu te quero amarrado na minha sala de chita
preu rodopiar sem pedir licença
para vida ou pro mundo
pra natureza ou pra qualquer santo
eu já tomei um banho de ervas
já ouvi tantas pessoas dizerem
ela não é mais
ele era
e eu digo é impossível
ele tá aqui nas tábuas do assoalho
no meu altar de santo
no campo serrado
no rio quando vai chegando
a dona castorina me disse
que eu carrego um amor muito forte
que isso é capaz de enlouquecer
como quando corri pelo terreiro
e não te achava
como quando eu te esperei
e você não chegava
eu ano achando que você deixou
um canoa à minha espera
porque anda pensando que vou sem ti
o nosso filho me disse
que eu não acreditassse na morte
e que agora é você quem acende os vaga-lumes.




Silêncio (ou Do dever da escrita)

 


Quantas vidas se passaram

Em silêncio? Tantas e mais tantas

Que delas é feito o tempo.

 

Pequenos grãos, pedrinhas

Que se apagam, mas fazem

Juntas a estrada. Cascalhos

 

Que se tornam leito

De imenso rio de histórias.

De silêncios aprendo

 

Lentamente a explorar

A beleza que se desfaz

Caso eu fale. Mas é preciso,

 

Ao menos, escrever,

Para conseguir fotografar

O átimo de fogo no tempo

 

Que me consome.

Se eu as tiver mostrado,

Evocado, comunicado,

 

Serei, com elas, vida,

Sentido, rio, instante,

Pedregulho, silêncio.

B.C.

07 de janeiro de 2021,

ouvindo Ludovico Einaudi

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O segredo!

 O segredo é o seguinte (vale ouro): você escreve 1 como quer; depois, corrige; depois sintetiza; deixa descansar (passa umas horas longe, geralmente dormir nelas é bom); "a massa" cresce fora e dentro de você; você sintetiza a síntese; deixa descansar de novo (igualmente ao processo anterior); volta; sente que está pronto; deixa descansar pela terceira, quarta vez; lambe como se fosse cria. Depois do sétimo dia, descansa.

Quem inventou a receita? Deus (dizem por aí...)




terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Um sonho

 

Ontem eu sonhei o teu sonho.
Sonhei que os soldados,
cantando e dançando,
libertando-se de todo mal,
surgiam de todos os lugares
para velar o funeral
de todo arsenal
das ogivas nucleares.
No sonho,
os homens não eram escravos
nem de si, nem dos outros,
tampouco das cores,
pois o dinheiro
havia sido morto
no combate com o amor.
As crianças,
cravo e canela,
dançavam com as flores,
como não tinham fome
caçavam estrelas
e quando cansadas
tornavam-se nelas!
Sonhei
que as mulheres e os homens
não tinham coisas, mas sentimentos,
e em sinal de alegria,
plantavam suas orações
não de mãos espalmadas,
mas de braços dados
com o milagre do dia.
E Deus - todo pequeno gesto de amor -
não frequentava igrejas,
livros ou estátuas,
apenas corações…
Ontem,
sonhei o teu sonho
sem saber que também era o meu.
Sérgio Vaz
*do livro "Colecionador de pedras" Global Editora