Dai-me um roteiro que eu, senhora, siga,
a vosso bel-prazer feito e cortado,
que por mim há-de ser tão respeitado,
que nem num ponto só dele desdiga.
Se vos apraz que eu morra, e que a fadiga,
que me punge, a não conte, eis-me finado!
Se preferis que em modo desusado
vo-la narre, eu farei que Amor a diga.
De substâncias contrárias eu sou feito,
de mole cera e diamante duro;
às leis do amor curvar esta alma posso.
Brando ou rijo, aqui tendes o meu peito,
engastai, imprimi a sabor vosso!
Tudo guardar eternamente eu juro.
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Soneto - Cevantes
SONETO
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
Um dia
Um dia, a cada dia, seremos
-somos- um rio.
Corre o fluxo leve e delicado
dos sons do órgão e do violino:
quem diz haver mais beleza
que ouvi-los enquanto
a tarde passa e o sol se abaixa
trazendo a noite?
Liberdade
"O sol doura sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa."
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa."
Um trechinho de "Liberdade", de Fernando Pessoa.
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Minhas tardes com Margheritte - Poema
Poema do filme: Minhas tardes com Margheritte
Foi um encontro discreto do afeto com o amor
Ela não tinha outro teto
Tinha nome de flor
Vivia cercada de palavras
Adjetivos, substantivos, verbos e advérbios
Alguns chegam sem jeito
Ela chegou com doçura
Quebrou minha armadura
E se alojou no meu peito
Nas histórias de amor
Não há apenas o amor
Nunca dizemos..."Eu te amo"
No entanto, nos amamos
Não é uma história comum
Ela leu para mim
Num banco de jardim
Era frágil com uma pomba
Sentada àquela sombra
Cercada de palavras
De nomes comuns como eu
Me deu muitos livros
Que me tornaram mais vivo
Não morra agora
Espere um pouco
Não é hora, doce senhora
Me dê um pouco mais ainda
Um pouco mais de sua vida
Espere...
Nas histórias de amor
Não há apenas o amor
Nunca dizemos "Eu te amo"
No entanto, nos amamos.
Poema narrado por Gérard Depardieu enquanto sobrem os créditos do filme Minhas tardes com Margheritte.
Foi um encontro discreto do afeto com o amor
Ela não tinha outro teto
Tinha nome de flor
Vivia cercada de palavras
Adjetivos, substantivos, verbos e advérbios
Alguns chegam sem jeito
Ela chegou com doçura
Quebrou minha armadura
E se alojou no meu peito
Nas histórias de amor
Não há apenas o amor
Nunca dizemos..."Eu te amo"
No entanto, nos amamos
Não é uma história comum
Ela leu para mim
Num banco de jardim
Era frágil com uma pomba
Sentada àquela sombra
Cercada de palavras
De nomes comuns como eu
Me deu muitos livros
Que me tornaram mais vivo
Não morra agora
Espere um pouco
Não é hora, doce senhora
Me dê um pouco mais ainda
Um pouco mais de sua vida
Espere...
Nas histórias de amor
Não há apenas o amor
Nunca dizemos "Eu te amo"
No entanto, nos amamos.
Poema narrado por Gérard Depardieu enquanto sobrem os créditos do filme Minhas tardes com Margheritte.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Alexandre O'Neill
alexandre o´neill / agora escrevo
Que queriam fazer de mim?
Uma palavra, um gemido obsceno,
Uma noite sem nenhuma saída,
Um coração que mal pudesse
Defender-se da morte,
Uma vírgula trémula de medo
Num requerimento azul, azul,
Uma noite passada num bordel
Parecido com a vida, resumindo
Brutalmente a vida!
A chave dos sonhos, o segredo
Da felicidade, as mil e uma
Noites de solidão e medo,
A batata cozida do dia-a-dia,
O muscular fim de semana,
As sardinhas dormindo,
Decapitadas, no azeite,
O amor feito e desfeito
Como uma cama
E ao fundo – o mar…
Mas defendi-me e agora escrevo
Furiosamente, agora escrevo
Para alguém:
Lembras-te, meu amor, dos passeios que demos
Pela cidade? Dos dias que passámos
Nos braços da cidade?
Coleccionámos gente, rostos simples, frases
De nenhum valor para além do mistério
Também simples do nosso amor,
Inventámos destinos, cruzámos vidas
Feitas de compacta vontade,
De dura necessidade, rostos frios
Possuídos por uma ausência atroz,
Corpos extenuados mas sem nenhum sono para dormir,
Olhos já sem angústia, sem esperança, sem qualquer
Pobre resto de vida!
Seguimos a alegria das crianças, agressiva
Como o carvão riscando uma parede,
Aprendemos a rir (oh que vergonha!...)
Com a gente «ordinária», e calados
Descemos até ao rio – e ali ficámos
A ver!
O amor continua muito alto,
Muito acima, muito fora
Da vida, muito raro
E difícil: maravilhoso
Quando devia ser fiel,
Fiel em cada dia,
Paciente e natural em cada dia,
Profundo e ao mesmo tempo aéreo,
Verde e simples,
Como uma árvore!
Ganhámos juntos o que perdemos separados:
A luz incomparável, esta luz quase louca
Da primavera, esta gaivota
Caída dos ombros da luz,
E a leve, saborosa tristeza do entardecer,
Como uma carta por abrir,
Uma palavra por dizer…
Ganhámos juntos o que vamos perdendo
Separados:
A alegria – inocente
Cidade,
Coração aberto pela manhã,
Pequeno barco subindo
Nitidamente o rio,
Fumegando, fumando
Com o seu ar importante de homenzinho…
E a ternura – beijo sobrevoando
O teu rosto fiel,
Fogo intensamente verde sobre a terra,
Intensamente verde nos teus olhos,
Pequeno «nariz ordinário»
Que entre os meus dedos protesta
E se debate…
Duas árvores de avanço,
Uma corrida louca…
… E o teu coração na minha boca!
E o amor,
Não o que destrói, o que não é amor,
Não a fúria dos corpos quando trocam
Desespero por desespero,
Não a suprema tristeza de existir,
A obscena arte de viver,
A ciência de não dar e receber,
Mas o amor que se traduz
Pela bondade, a confiança,
A pureza, a fraternidade,
A força de viver, de triunfar da morte,
De triunfar da sorte,
A vertigem de conhecer
Necessidade e liberdade!
Ganhámos juntos o que perdemos separados.
Flechas velocíssimas,
Nossos sonhos voavam
Em direcção à vida,
E era na vida que queriam acertar,
Era na vida que queriam morder,
Era à vida que nos queriam ligar!
Nos nossos sonhos entrava gente viva,
Entravam cartas, poemas, versos
Tão cheios de sentido como ruas
E ruas plenas de ritmo e sentido,
Como os melhores versos,
Entravam amigos, desejos, lutas
E esperanças comuns.
Recordações, amores antigos
Como navios perdidos muito ao longe
Ou já imóveis sob anos e anos de silêncio,
Leituras discutidas, evocadas: sonhos
E destinos próximos, tristezas e alegrias semelhantes,
Vidas exemplares,
Vidas fulgurantes de vida!
Michaux, o que dizia
A cada passo: «Et comment!»
Para exprimir o seu apago à vida,
A sua indomável alegria!
E N-2 e Berta,
Um ao outro presos
Como fantasmas,
Mas vivendo e ajudando a viver!
E Éluard, os seus poemas
Simples como gestos de alegria,
Directos como palavras
De justa cólera,
Irreprimíveis como beijos
Quentes de ternura,
Completos como pássaros
Rápidos no azul!
E muitos outros ainda,
Muitas outras vidas,
Reais ou inventadas
Exemplarmente do real!
Nos nossos dias entravam dúvidas e erros,
A terrível solidão de certas horas
Sem um ombro amigo,
O coração abandonado, flutuando
Como um peixe morto, um resto
De calor dentro do frio.
Dúvidas, erros,
E a tentação de levantar andaimes,
De entrar «em obras», de instalar
Em cada dia um «problema»
E de dourar
O «problema» de cada dia…
Mas não só a dúvida e o erro,
O coração entornado, a cabeça perdida
Entravam nos nossos dias.
Porém
Tratava-se de realizar.
«Realizar»: fazer passar
Para a realidade,
Pôr em prática sonhos,
Ideias, teorias.
Por exemplo: a indústria,
A agricultura realizam
Certas teorias
Químicas, físicas,
Biológicas.
Por exemplo: hoje
Estão a ser realizados
Os mais velhos
Sonhos do homem.
Por exemplo – mais pessoal
Mas não menos importante:
Em ti
Via realizados os meus sonhos!
alexandre o´neill
surrealismo / abjeccionismoantologia organizada por
mário cesariny de vasconcelos
minotauro
1963
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Escrever
Escrever é arrisca-se, ao tentar adivinhar o obscuro, enquanto ler é iluminar-se com a claridade do já decifrado.
Carta poética - Bartolomeu Campos de Queirós
Carta poética - Bartolomeu Campos de Queirós
Ao fantasiar
A arte, bem como a literatura, nasce da liberdade de fantasiar e não suporta prisões. Tentar engaiolar o fruto da liberdade é lhe cortar as asas, impedir seus voos, que alcançam maiores distâncias quando impulsionados por muito sopros. Conhecemos a necessidade da liberdade, mas desconhecemos sua extensão. Por ser assim, compreendo, como tantos outros, que o homem possui o tamanho de sua fantasia. O sujeito alcança onde sua fantasia toca.
Ao fantasiar - Bartolomeu Campos de Queirós.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Retrato de poeta quando jovem
Retrato do poeta quando jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
(José Saramago)
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Para ler em silêncio - Bartolomeu Campos de Queirós
"Agora meu ofício de escrever pede coragem - assim eu penso - ao me ver recostado na cadeira esperando a palavra acontecer
para inaugurar a página que me espia e interroga. Quando a palavra acontece é mais um passo que se anda mistério adentro.
A palavra amplia o mundo. Ela clareia seus escuros sem lhe roubar as sombras. Também o mundo, como eu, não se mostra por
inteiro.
O caderno aberto diante dos olhos aguarda notícias do meu horizonte. Mas o horizonte só a fantasia toca. Sobre sua linha, impossível
de se andar, equilibram-se desencontros, pesares, e a ternura pelo ainda desconhecido. E como meu olhar escuta, nesses momentos!
Meu olhos saboreiam o indecifrável e o adoça com o privilégio de poder imaginar, sobrepor outras desconfianças."p.29
...
"Escrever é imprimir a experiência do espanto de estar no mundo. É estender as dúvidas, confessar os labirintos, povoar desertos. E
mais, escrever é dividir sobressaltos, explicar descobertas e abrir-se ao mundo na ilusão de tocar a completude." p.12
Para ler em silêncio - Bartolomeu Campos de Queirós

Dennis Perrin born August 26, 1950 in Topeka (Kansas), USA-Reading in the afternoon
para inaugurar a página que me espia e interroga. Quando a palavra acontece é mais um passo que se anda mistério adentro.
A palavra amplia o mundo. Ela clareia seus escuros sem lhe roubar as sombras. Também o mundo, como eu, não se mostra por
inteiro.
O caderno aberto diante dos olhos aguarda notícias do meu horizonte. Mas o horizonte só a fantasia toca. Sobre sua linha, impossível
de se andar, equilibram-se desencontros, pesares, e a ternura pelo ainda desconhecido. E como meu olhar escuta, nesses momentos!
Meu olhos saboreiam o indecifrável e o adoça com o privilégio de poder imaginar, sobrepor outras desconfianças."p.29
...
"Escrever é imprimir a experiência do espanto de estar no mundo. É estender as dúvidas, confessar os labirintos, povoar desertos. E
mais, escrever é dividir sobressaltos, explicar descobertas e abrir-se ao mundo na ilusão de tocar a completude." p.12
Para ler em silêncio - Bartolomeu Campos de Queirós

Dennis Perrin born August 26, 1950 in Topeka (Kansas), USA-Reading in the afternoon
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