domingo, 19 de abril de 2026

Tamara Klink

Nós - Tamara Klink Bem maiores que as chances de encontro são as chances de desencontro. De duas pessoas partirem e voltarem para casa em horas alternadas. De tomarem ruas reversas. De mergulharem em ondas paralelas.De os carrinhos de minho e guarda-sóis interceptarem o ponto de vista de um sobre o outro. De os ritmos desfasados dos seus passos sobre a areia afatarem os corpos. De um sinal de chuva desencorajar o caminho que levaria à convergência. De uma peça indispensável da história não concluir a viagem. Por alguma razão que nossa razão não alcança, os encontros acontecem. Somos prova disso.

domingo, 5 de abril de 2026

Vem – Liana Ferraz abrir a lata de cartas e ter cartas dentro. palavras em estado bruto, de papel, caneta e resto de calor das mãos. e olhar os selos, os pacotes e os pactos manuscritos. assinados por alguém que se desloca à letra, ao envelope. Alguém que lambe o envelope, que vai ao correio e que lança certeiro, carteiro, uma flecha que vai chegar. Imagino o dia em que, na lata das cartas, Estará aquela com seu nome no remetente. na mensagem, por favor, escreva legível seu endereço e a palavra VEM, que é para eu saber a hora de pegar a rua, a sua, e devolver a carta lambida num beijo sem pacto nem pacote nem receio.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Fim e começo - Wislawa Szymborska

Depois de cada guerra alguém tem que fazer a faxina. Colocar uma certa ordem que afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulho para o lado da estrada para que possam passar os carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolar no lodo e nas cinzas em molas de sofás em cacos de vidro e em trapos ensanguentados. Alguém tem que arrastar a viga para apoiar a parede, pôr a porta nos caixilhos, envidraçar a janela. A cena não rende foto e leva anos. E todas as câmeras já debandaram para outra guerra. As pontes têm que ser refeitas, e também as estações. De tanto arregaçá-las, as mangas ficarão em

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Esta ave...

Esta ave Abre as asas Entre a Grécia E a Alemanha, Tão clássica É sua ideia. Essa ave lembra O corvo de Poe E o espírito de união Que dizem ter descido Sobre os amigos De Cristo. Mas, não! Ela é só mais uma, Como tu e eu, Contente por estar viva Mesmo sem ser anjo. Ela é a pomba da Razão! B.C.

domingo, 26 de junho de 2022

quarta-feira, 27 de abril de 2022

BEM CEDO - Wislawa Szymborska

Ainda durmo, mas enquanto isso as coisas acontecem. A janela embranquece, a escuridão se acinzenta, o quarto emerge de um espaço indefinido, listas pálidas e instáveis buscam apoio. Na fila, sem pressa, pois isso é uma cerimônia, amanhecem as superfícies do teto e das paredes, as formas se destacam umas das outras, as da esquerda das da direita. As distâncias entre os objetos vibram, as primeiras luzes cintilam no corpo, na maçaneta. As coisas deixam de ser impressões, já existem, como o que ontem foi deslocado, o que caiu no chão e o que está contido nas molduras. Apenas os detalhes continuam invisíveis. Mas atenção, atenção, atenção, tudo indica que as cores estão retornando e mesmo a mínima coisa recebe de volta sua matiz, acompanhada de uma ponta de sombra. Raramente isso me surpreende, mas deveria. Normalmente eu acordo, testemunha atrasada, o milagre finalizado, o dia definido e a aurora magistralmente transformada em manhã.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

11o par de Cartas - Ruth Vasconcelos

"Sempre gostei de pensar a vida como um jogo, mas parece que estou levando essa metáfora muito a sério(refiro-me ao cronômetro). E é isso mesmo: os lances da vida são únicos, irrepetíveis; as oportunidades e composições das jogadas são singulares e a interação da equipe em campo parece ser o maior segredo da vitória. Tive o privilégio de crescer numa família de atletas. Meus pais foram atletas quando jovens e meus irmãos colecionaram títulos de campeões. Cresci neste ambiente saudável, onde o jogo fazia parte da dinâmica familiar. Eu própria fui campeã brasileira de handebol e as competições de que participei ainda hoje me servem de exemplo de como é participar de disputas sem querer destruir o "adversário", que jamais pode sesr visto como um "inimigo". Aprendi com as regras do esporte que sem o adversário o jogo não acontece. ... Pude vivenciar e aprender, como atleta, a virtude dos sentimentos de solidariedade, lealdade, reciprocidade, fidelidade, companherismo, compaixão, partilha e respeito nos espaços das quadras esportivas".