Não me basta ser:
eu quero o transbordar de tudo,
o desassombro
que toda margem desconhece.
Não me basta morar:
quero ser habitado
por quem ao destino desobedece.
Não me basta viver:
quero a vida como febre,
o amor como lume e água.
No final, saberás:
o que se ama não regressa.
O que se vive
não começa.
E o sonho
nunca tem pressa.
Vagas e Lumes
domingo, 27 de outubro de 2019
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Uma Carta...
Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com sua quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!
Mário Quintana
segunda-feira, 29 de abril de 2019
Já faz tempo que escolhi
Thiago de Mello
A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre a cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.
Mormaço na floresta (1981)
domingo, 28 de abril de 2019
Quando eu não te tinha - Alberto Caeiro
Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais como vida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
6-7-1914
“O Pastor Amoroso”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luís de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946.
- 87.segunda-feira, 25 de março de 2019
Um país multiétnico
Uma das alegrias maiores em ter participado de uma Rede de Leitura foi a oportunidade de conhecer gente que vive a devoção de amar a literatura literária, além de conhecer de perto um pouco da produção de escritores(as) brasileiros(as). Um dos escritores que me impressionou foi o Daniel Munduruku,educador indígena.
Pergunto como ser indiferente diante de uma constatação que parece ainda ser realidade no século XXI ?
....
O Brasil é um país multiétnico desde seu princípio. No século XVI, neste solo, viviam difentes culturas, quando aportaram os invasores trazendo ganância e cruz. Eram mais de mil povos, segundo alguns, mais de cinco milhões de pessoas, de acordo com outros. Falavam-se cerca de novecentas línguas diferentes.
Muitos dos povos daquele tempo não existem mais. Foram devorados pela espada, pela ganância e pelo preconceito. Alguns se esconderam no meio da multidão que ser formou do encontro, nem sempre amoroso, entre homens e mulheres de diferentes cores. Outros fugiram para a floresta e guardaram enquanto puderam sua memória e suas tradições.
Hoje, ainda há diversidade cultural e linguística no Brasil. Há 230 povos e 180 línguas que se mantêm vivos, para desespero dos que pretendem depredar ou piratear a riqueza contida no solo e subsolo brasileiros. São povos que querem sobreviver com dignidade, procurando assegurar uma vida plena para seus filhos. Desejam para si o mesmo que seus avós desejavam: paz para andar sobre a terra, sem deixar marcas de sua passagem.
Texto apresentado no Congresso Internacional Para leer el XXI - Havana/Cuba - 2007.
Daniel Munduruku (apoio do Ministério da Cultura)
Fonte: Edelbra Editora
domingo, 3 de março de 2019
Tenho tanto sentimento
Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa
domingo, 24 de fevereiro de 2019
É importante insistir no papel da simplicidade, brevidade e graça
próprias da crônica. [...] Na verdade, aprende-se muito quando se diverte,
e aqueles traços constitutivos da crônica são um veículo privilegiado para
mostrar de movo persuasivo muita coisa, que, divertindo, atrai, inspira e faz
amadurecer a nossa visão das coisas. [...]
CANDIDO, Antônio et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações
no Brasil. Campinas: Unicamp; Rio de Janeiro, em 2011.
próprias da crônica. [...] Na verdade, aprende-se muito quando se diverte,
e aqueles traços constitutivos da crônica são um veículo privilegiado para
mostrar de movo persuasivo muita coisa, que, divertindo, atrai, inspira e faz
amadurecer a nossa visão das coisas. [...]
CANDIDO, Antônio et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações
no Brasil. Campinas: Unicamp; Rio de Janeiro, em 2011.

Das utopias
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mario Quintana , Espelho Mágico. Porto Alegre: Editora Globo.1951.

sábado, 23 de fevereiro de 2019
Aonde ? ...
Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irônica, responde!
Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantante como um rio banhado de luar!
Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...
Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azui do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?
Florbela Espanca
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Carta para Josefa, minha avó - José Saramago
Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.
Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)
Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

Folha caída: pinterest.com
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adélia. Exausto. In: ______ Poesia reunida.
São Paulo: Siciliano, 1991. p. 27.

Foto: Elina Zolotareva - Coffee morning / pinterest.com
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adélia. Exausto. In: ______ Poesia reunida.
São Paulo: Siciliano, 1991. p. 27.

Foto: Elina Zolotareva - Coffee morning / pinterest.com
Amor e medo
Estou te amando e tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo.
Mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo
SANT´ANNA, Affonso Romano de. Amor e medo. In: ______. A implosão
da mentira e outros poema. São Paulo: Global, 2007, p. 46.
foto: pinterest.com
Estou te amando, sim, concedo.
Mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo
SANT´ANNA, Affonso Romano de. Amor e medo. In: ______. A implosão
da mentira e outros poema. São Paulo: Global, 2007, p. 46.

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Canção de vidro
E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...
E é tão puro o silêncio agora!
QUINTANA, Mário. Canção de vidro. In: _______. Poesia completa
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.

Foto: pinterest.com
Não se ouviu nada...
Nada...
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...
E é tão puro o silêncio agora!
QUINTANA, Mário. Canção de vidro. In: _______. Poesia completa
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.

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