segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Carta aos Diretores de Asilos de Loucos - Antonin Artaud


Senhores:

As leis, os costumes, concedem-lhes o direito de medir o espirito. Esta jurisdição soberana e terrível, vocês a exercem segundo seus próprios padrões de entendimento.

Não nos façam rir. A credualidade dos povos civilizados, dos especialistas, dos governantes, reveste a psiquiatria de inexplicáveis luzes sobrenaturais. A profissão que vocês exercem esta julgada de antemão. Não pensamos em discutir aqui o valor dessa ciência, nem a duvidosa existência das doenças mentais. Porém para cada cem pretendidas patogenias, onde se desencadeia a confusão da matéria e do espirito, para cada cem classificações, onde as mais vagas são também as únicas utilizáveis, quantas tentativas nobres se contam para conseguir melhor compreensão do mundo irreal onde vivem aqueles que vocês encarceraram?

Quantos de vocês, por exemplo, consideram que o sonho do demente precoce ou as imagens que o perseguem são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreende ver até que ponto vocês estão empenhados em uma tarefa para a qual só existe muito poucos predestinados. Porém não nos rebelamos contra o direito concedido a certos homens - capazes ou não - de dar por terminadas suas investigações no campo do espirito com um veredicto de encarceramento perpétuo.

E que encerramento! Sabe-se - nunca se saberá o suficiente - que os asilos, longe de ser "asilos", são cárceres horríveis onde os reclusos fornecem mão-de-obra gratuita e cômoda, e onde a brutalidade è norma. E vocês toleram tudo isso. O hospício de alienados, sob o amparo da ciência e da justiça, è comparável aos quartéis, aos cárceres, as penitenciarias. Não nos referimos aqui as internações arbitrárias, para lhes evitar o incomodo de um fácil desmentido. Afirmamos que grande parte de seus internados - completamente loucos segundo a definição oficial - estão também reclusos arbitrariamente. E não podemos admitir que se impeça o livre desenvolvimento de um delírio, tão legitimo e lógico como qualquer outra serie de idéias e atos humanos. A repressão das reações anti-sociais, em principio, è tão quimérica como inaceitável. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vitimas individuais por excelência da ditadura social. 

E em nome dessa individualidade, que è patrimônio do homem, reclamamos a liberdade desses forcados das galés da sensibilidade, já que não se está dentro das faculdades da lei condenar à prisão a todos que pensam e trabalham. Sem insistir no caráter verdadeiramente genial das manifestações de certos loucos, na medida de nossa capacidade para avalià-las, afirmamos a legitimidade absoluta de sua concepção da realidade e de todos os atos que dela derivam.

Esperamos que amanha de manha, na hora da visita medica, recordem isto, quando tratarem de conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais - reconheçam - só tem a superioridade da forca.

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)


Foto

Milan Kundera




"Depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, esse corpo o inquieta menos. Atualmente, cada um de nós sabe que a alma nada mais é que a atividade da matéria cinzenta do cérebro. A dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos; hoje isso é um preconceito fora de moda que só nos faz rir.
Mas basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça."
Milan Kundera - A insustentável leveza do ser

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Casa e existência - Ana Raquel de Oliveira França



Casa e existência

Ana Raquel Oliveira França

Toda casa é reflexo de nossa existência
Ela reflete nossos sonhos,
nossa esperança em relação a vida
nossa busca por um lugar melhor,
nosso mundo interno.
Em cada canto revela um segredo de nossa existência.
cantos do religioso,
cantos ligados a nossos hábitos alimentares,
cantos que abrandam nosso cansaço,
cantos que expressam nossos hábitos de higiene,
nossas paixões, nossos vícios, nossas cores prediletas,
cantos que nos remetem a lembranças de viagem,
cantos de fotos de quem habitam em nossos corações.

Toda casa é reflexo da nossa existência.
Ela reflete nosso gosto, nosso estilo de vida,
O que lemos,
o que pensamos é revelado nas  paredes, nos quadros,
nos adornos que coabitam neste espaço.
No cuidado que, supostamente, destinamos a ela e aos outros.

Tem casa que nos acolhe como o abraço de quem ama,
Tem casa que nos enche os olhos de verde, de calma, de desejo de ficar,
Outras nos afastam que ausência de significados.

Toda casa é reflexo de nossa existência.
Ela revela como vive seus moradores,
se a existência é organizada e em comunidade,
se vivem em harmonia ou disputam espaços.

Nossa casa nos revela,
Revela se cuidamos dos recursos naturais,
da água, da luz, do solo, das  plantas
e se estamos integrados não só a este espaço,
mas a relação que temos com o cosmos,
com a terra que nos abriga.

Tudo se integra, tudo nos revela ...

Então, olhe ao seu redor,
veja como você está diante da vida...
Não precisa ir muito longe, pare, contemple
e reflita sobre  o tempo que você destina a esse mundo.

Ainda há tempo para arrumar a casa
Limpar os porões,
os sótãos,
as paredes,
Os espaços que abrigam nossa existência.

Toda casa é reflexo de nossa existência.

04.07.14