Pela 1,30 hora da madrugada, soa a campainha do convento. Um velhinha
está na porta, Segura uma lanterna acesa. Toda envolta num grosso manto
cinza. Trazia um pequeno pacote. Disse: “É para o Paterle (padrezinho)
estrangeiro que estava na missa do galo”. Fui chamado. Entregou-me o
pacote, todo enfeitado, com breves palavras: “ O Sr. está longe de sua
pátria. Distante dos seus. Aqui, hoje é Natal”. Apertou-me fortemente a
mão e se afastou na noite abençoada pela neve.
No qu...arto,
sozinho, enquanto ruminava imagens do Natal em casa, muito do estilo
como este, mas sem a neve, desfiz, com reverência, o pacote. Era uma
grossa vela. Vermelho-escura. Toda trabalhada. Com um grosso suporte de
metal. Uma luzinha iluminou a noite da solidão. As sobre se projetaram
trêmulas e longas na parede. Não me senti mais só. Fora da pátria havia
acontecido o milagre de todo o Natal: a festa da fraternidade de todos
os homens. Alguém compreendeu a mensagem do Menino: fez do estranho um
próximo e do estrangeiro um irmão.
Os Sacramentos da Vida e a
Vida dos Sacramentos.
Leonardo Leonardo Boff
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Fragmento do Livro da Ana - Bartolomeu Campos de Queirós
“Entre o adeus do sol e o boa-noite da lua, Ana se assentava com o livro aberto sobre os joelhos. Nesta hora, um sossego mora no céu e visita a vida. Não há tristeza. Anjos voam acendendo estrelas. Só o silêncio vê. E eles cantam. A canção é leve, acompanhada de flauta, violino e cítara. Só o coração escuta. Mas Ana, por respirar a emoção da leitura, tudo via e tudo escutava. Ao ler, também se vê e se escuta”.
Bartolomeu Campos de Queirós – O livro de Ana
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Eu voltarei - Cora Coralina
EU VOLTAREI
Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.
Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.
Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.
Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
E eu morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.
Eu voltarei...
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Os ninguéns - Eduardo Galeano
OS NINGUÉNS- EDUARDO GALEANO
“As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.”
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Um presente de Maria, o texto "As Cocadas" - Cora Coralina
As cocadas
Cora Coralina
Eu devia ter nesse tempo dez anos. Era menina prestimosa e trabalhadeira à moda do tempo.Tinha ajudado a fazer aquela cocada. Tinha areado o tacho de cobre e ralado o coco. Acompanhei rente à fornalha todo o serviço, desde a escumação da calda até a apuração do ponto. Vi quando foi batida e estendida na tábua, vi quando cortada em losangos. Saiu uma cocada morena, de ponto brando atravessada de paus de canela cheirosa. O coco era gordo, carnudo e leitoso, o doce ficou excelente. Minha prima me deu duas cocadas e guardou tudo mais numa terrina grande, funda e de tampa pesada. Botou no alto da prateleira.Duas cocadas só ... Eu esperava quatro e comeria de uma assentada oito, dez, mesmo. Dias seguidos namorei aquela terrina, inacessível. De noite, sonhava com as cocadas. De dia as cocadas dançavam pequenas piruetas na minha frente. Sempre eu estava por ali perto, ajudando nas quitandas, esperando, aguando e de olho na terrina.Batia os ovos, segurava gamela, untava as formas, arrumava nas assadeiras, entregava na boca do forno e socava cascas no pesado almofariz de bronze.Estávamos nessa lida e minha prima precisou de uma vasilha para bater um pão-de-ló. Tudo ocupado. Entrou na copa e desceu a terrina, botou em cima da mesa, deslembrada do seu conteúdo. Levantou a tampa e só fez: Hiiii ... Apanhou um papel pardo sujo, estendeu no chão, no canto da varanda e despejou de uma vez a terrina.As cocadas moreninhas, de ponto brando, atravessadas aqui e ali de paus de canela e feitas de coco leitoso e carnudo guardadas ainda mornas e esquecidas, tinham se recoberto de uma penugem cinzenta, macia e aveludada de bolor.Aí minha prima chamou o cachorro: Trovador ... Trovador ... e veio o Trovador, um perdigueiro de meu tio, lerdo, preguiçoso, nutrido e abanando a cauda. Farejou os doces em interesse e passou a lamber, assim de lado, com o maior pouco caso.Eu olhando com uma vontade louca de avançar nas cocadas.Até hoje, quando me lembro disso, sinto dentro de mim uma revolta - má e dolorida - de não ter enfrentado decidida, resoluta, malcriada e cínica, aqueles adultos negligentes e partilhado das cocadas bolorentas com o cachorro.
Eu devia ter nesse tempo dez anos. Era menina prestimosa e trabalhadeira à moda do tempo.Tinha ajudado a fazer aquela cocada. Tinha areado o tacho de cobre e ralado o coco. Acompanhei rente à fornalha todo o serviço, desde a escumação da calda até a apuração do ponto. Vi quando foi batida e estendida na tábua, vi quando cortada em losangos. Saiu uma cocada morena, de ponto brando atravessada de paus de canela cheirosa. O coco era gordo, carnudo e leitoso, o doce ficou excelente. Minha prima me deu duas cocadas e guardou tudo mais numa terrina grande, funda e de tampa pesada. Botou no alto da prateleira.Duas cocadas só ... Eu esperava quatro e comeria de uma assentada oito, dez, mesmo. Dias seguidos namorei aquela terrina, inacessível. De noite, sonhava com as cocadas. De dia as cocadas dançavam pequenas piruetas na minha frente. Sempre eu estava por ali perto, ajudando nas quitandas, esperando, aguando e de olho na terrina.Batia os ovos, segurava gamela, untava as formas, arrumava nas assadeiras, entregava na boca do forno e socava cascas no pesado almofariz de bronze.Estávamos nessa lida e minha prima precisou de uma vasilha para bater um pão-de-ló. Tudo ocupado. Entrou na copa e desceu a terrina, botou em cima da mesa, deslembrada do seu conteúdo. Levantou a tampa e só fez: Hiiii ... Apanhou um papel pardo sujo, estendeu no chão, no canto da varanda e despejou de uma vez a terrina.As cocadas moreninhas, de ponto brando, atravessadas aqui e ali de paus de canela e feitas de coco leitoso e carnudo guardadas ainda mornas e esquecidas, tinham se recoberto de uma penugem cinzenta, macia e aveludada de bolor.Aí minha prima chamou o cachorro: Trovador ... Trovador ... e veio o Trovador, um perdigueiro de meu tio, lerdo, preguiçoso, nutrido e abanando a cauda. Farejou os doces em interesse e passou a lamber, assim de lado, com o maior pouco caso.Eu olhando com uma vontade louca de avançar nas cocadas.Até hoje, quando me lembro disso, sinto dentro de mim uma revolta - má e dolorida - de não ter enfrentado decidida, resoluta, malcriada e cínica, aqueles adultos negligentes e partilhado das cocadas bolorentas com o cachorro.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Amarello amor - Carolina Ferraz
Amarello Amor
O texto e a locução são da atriz Carolina Ferraz.
"O que existe além do que já foi dito sobre o amor?
Toda minha vida pautada em amores que tive ou gostaria de ter.
Falando sobre os que tive, também não tenho muito a dizer.
Amei e fui muito bem amada.
Mas foi um amor, um único amor que veio cruzou minha vida, tocou a minha alma e ficou marcado em minha pele.
Falando sobre os que tive, também não tenho muito a dizer.
Amei e fui muito bem amada.
Mas foi um amor, um único amor que veio cruzou minha vida, tocou a minha alma e ficou marcado em minha pele.
Todos nos carregamos conosco uma história.
Aquela que só nos atrevemos a lembrar, quando durante a noite no escuro, encostamos nossas cabeças no travesseiro e o silêncio cala fundo.
Aquela que só nos atrevemos a lembrar, quando durante a noite no escuro, encostamos nossas cabeças no travesseiro e o silêncio cala fundo.
Não importam os anos, certas coisas simplesmente permanecem.
Mas então, numa quinta-feira a tarde de um ano qualquer, tropeçamos nesse amor já supostamente esquecido.
Percebemos que amor igual não há e aquela pessoa continua e continuará a ser nossa referencia afetiva mais sincera e profunda.
Percebemos que amor igual não há e aquela pessoa continua e continuará a ser nossa referencia afetiva mais sincera e profunda.
Não é doença nem obsessão. Aliás não é nada, só amor. Amor dos bons, daqueles que são únicos e maravilhosos, que acontecem poucas vezes na vida das pessoas. Daqueles amores que ficam e que teremos que conviver com ele como algo concreto e parte de nossas vidas.
Que alma consegue atravessar a vida sem ter conhecido o amor? E quem sabe ter a sorte de ser correspondido?
Que vida vale a pena sem amor?
Nenhum sentimento é mais lindo profundo e transformador que o amor.
Só o amor transcende e purifica, enlouquece, cura, invade, permanece, liberta e aprisiona.
Quando acontece é um som grave que penetra invade e permanece.
Não compliquem e nem elaborem o sentimento mais incrível e poderoso de todos.
Permitam que ele chegue e se instale.
Pois, o resto são bobagens meninos, bobagens.”
"Entrego, confio, aceito e agradeço."
"O amor reaproxima, vence a distância e a ignorância."
Professor Hermógenes
sábado, 21 de setembro de 2013
Sobre nossas experiências...
"Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser completamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis."
Ítalo Calvinosexta-feira, 13 de setembro de 2013
O Agrado de John Donne
O Agrado
de John Donne
Traduzido ao Portugues por Jonny Kahleyn Dieb (juhannusproductions.com)
Envie-me uns agrados, para dar vida a minha esperança
E que meus pensamentos atormentados durmam e descancem;
Envie-me um pouco de mel, para adocar minha colméia,
Para que em minhas paixões eu possa ter esperanca.
Eu nao requiro nenhum adorno feito pelas tuas propias mãos,
A tricotar nossos amores numa teia fantástica
De juventude redescoberta, nem um anel para dar satisfacao
Do nosso afeto, que, como é redondo e liso,
Assim, devem ser nossos amores na simplicidade;
Não, nem os corais, agarrrados ao teu pulso,
Atados juntos em congruência,
Para demonstrar a harmonia dos nossos pensamentos;
Não, nem o teu retrato, embora tao gracioso,
E tao desejado, porque é de todos o melhor
Nem prosas, que são tao a bundantes,
Nas escrituras que tens comunicado.
Envie-me nem isso nem aquilo, para dar-me mais vantagem,
Mas jura que tu pensas que eu te amo, e nada mais.
de John Donne
Traduzido ao Portugues por Jonny Kahleyn Dieb (juhannusproductions.com)
Envie-me uns agrados, para dar vida a minha esperança
E que meus pensamentos atormentados durmam e descancem;
Envie-me um pouco de mel, para adocar minha colméia,
Para que em minhas paixões eu possa ter esperanca.
Eu nao requiro nenhum adorno feito pelas tuas propias mãos,
A tricotar nossos amores numa teia fantástica
De juventude redescoberta, nem um anel para dar satisfacao
Do nosso afeto, que, como é redondo e liso,
Assim, devem ser nossos amores na simplicidade;
Não, nem os corais, agarrrados ao teu pulso,
Atados juntos em congruência,
Para demonstrar a harmonia dos nossos pensamentos;
Não, nem o teu retrato, embora tao gracioso,
E tao desejado, porque é de todos o melhor
Nem prosas, que são tao a bundantes,
Nas escrituras que tens comunicado.
Envie-me nem isso nem aquilo, para dar-me mais vantagem,
Mas jura que tu pensas que eu te amo, e nada mais.
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The Token
by John Donne
Send me some tokens, that my hope may live
Or that my easeless thoughts may sleep and rest ;
Send me some honey, to make sweet my hive,
That in my passions I may hope the best.
I beg nor ribbon wrought with thine own hands,
To knit our loves in the fantastic strain
Of new-touch'd youth ; nor ring to show the stands
Of our affection, that, as that's round and plain,
So shou ld our loves meet in simplicity;
No, nor the corals, which thy wrist enfold,
Laced up together in congruity,
To show our thoughts should rest in the same hold ;
No, nor thy picture, though most gracious,
And most desired, 'cause 'tis like the best
Nor witty lines, which are most copious,
Within the writings which thou hast address'd.
Send me nor this nor that, to increase my score,
But swear thou think'st I love thee, and no more.
by John Donne
Send me some tokens, that my hope may live
Or that my easeless thoughts may sleep and rest ;
Send me some honey, to make sweet my hive,
That in my passions I may hope the best.
I beg nor ribbon wrought with thine own hands,
To knit our loves in the fantastic strain
Of new-touch'd youth ; nor ring to show the stands
Of our affection, that, as that's round and plain,
So shou ld our loves meet in simplicity;
No, nor the corals, which thy wrist enfold,
Laced up together in congruity,
To show our thoughts should rest in the same hold ;
No, nor thy picture, though most gracious,
And most desired, 'cause 'tis like the best
Nor witty lines, which are most copious,
Within the writings which thou hast address'd.
Send me nor this nor that, to increase my score,
But swear thou think'st I love thee, and no more.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O essencial é saber ver…
O essencial é saber ver…
Alberto Caeiro
Alberto Caeiro
O essencial é saber ver,
mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida,
isso exige um estudo profundo,
aprendizagem de desaprender.
Eu procuro despir-me do que aprendi,
eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram
e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
desembrulhar-me
e ser eu.
mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida,
isso exige um estudo profundo,
aprendizagem de desaprender.
Eu procuro despir-me do que aprendi,
eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram
e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
desembrulhar-me
e ser eu.
Fernando Pessoa
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e com os pés
E com o nariz e com a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Dias de chuva...
Quando era criança sonhava em ter uma sombrinha que fosse transparente com um barrado amarelo. As meninas ricas da escola possuíam uma, menos eu. Cresci vendo as sombrinhas transparentes nas mãos das meninas que desfilavam apressadamente na minha frente por causa da chuva e o impacto dela sobre aquele objeto do meu desejo.
Hoje, quando chove lembro das sombrinhas transparentes que tanto desejei e me pergunto porque não resolvo isso. Talvez queira ter nostalgia daquele momento tão íntimo...
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Salve, flos Tuscae - Dufay
Penso na felicidade que é poder escutar uma boa música. Atualmente, estou fascinada por música renascentista. Imagina o que é nesta pós modernidade, alguém está absolutamente absorta em escutar música de mais de 400 anos.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
domingo, 18 de agosto de 2013
Pequenas invejas...
Nunca fui invejosa ou mesmo ciumenta, penso que sejam sentimentos pobres para mim, mas tenho inveja de pequenas coisinhas quase sem importância que as pessoas possuem, como: flores na varanda, livros raros, canetas antigas, sinete, carimbo personalizado, coleção de selos,retratos branco e preto com dedicatórias. Ainda bem que caneta de pena com tinteiro ganhei da minha irmã há alguns anos e isto me alivia uma a menos.Talvez eu seja vintage!
Talvez essas pequenas invejas sejam pelo hábito ter tido diários e sempre escrevi longas missivas em papel de seda branco e envelope pardo especialmente encomendado. Começou com uma tia querida que foi morar no interior,depois namoradinhos de adolescência, prima de uma avó, uma monja carmelita, amigas que moravam longe, um engenheiro, um estudante de psicologia, jesuítas e por último Edson que escrevia muito bem e que arrebatou meu coração com lindas cartas de amor. Hoje, não existe mais um hábito tão fino e requintado, a tecnologia venceu e nos fez ser mais ágeis e "líquidos".Nesses tempos digitais a alegria não é mais a mesma, pois de fato, gosto de papéis e do barulho que fazemos quando abrimos uma carta de papel de seda. Tem ideia da maravilha do barulhinho que faz?
É a vida, temos que seguir em frente e acalentar saudades de pequenos hábitos. Digo que eram tempos divertidos.
Estou tentando escrever para mim mesma no meu blog desatualizado, mas que tem recortes das coisas que percebo no mundo, talvez minha janela da alma pedindo emprestado o termo ao Da Vinci. O facebook me põe medo e detesto a sensação de ser vigiada por pessoas tão diferentes.
domingo, 21 de julho de 2013
Pensando com Saramago...
A mesma esquizofrênica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição de suas rochas assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
José Saramago
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Sobre as manifestações no Brasil em junho de 2013.
Estamos em um momento muito delicado de nossa pátria. Será que de fato o gigante acordou?
Lendo Maturana (2002 p. 98) diz, este é o momento em que temos de atuar. Não tenhamos medo: se queremos, podemos agora incorporar a sensatez à vida nacional, e recuperar nossa dignidade de chilenos.(no caso de brasileiros)
... queremos participar no projeto comum de fazer do Chile
(Brasil) uma sociedade na qual o abuso e a pobreza sejam erros de convivência que se tem que reconhecer e corrigir, e que podem ser reconhecidos e corrigidos sem a perda da liberdade social.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Educação por Einstein
A educação é o que sobra depois que se esquece tudo o que se aprendeu na escola.
Albert Einstein, Escritos da maturidade, p.40
domingo, 17 de março de 2013
Ternura e vigor
[...] a experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos
toque, requer
um gesto de interrupção, um gesto que é quase
impossível nos tempos que
correm: requer parar para pensar, parar para olhar,
parar para escutar, pensar
mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais
devagar; parar para sentir,
sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes,
suspender a opinião, suspender
o juízo, suspender a vontade, suspender o
automatismo da ação, cultivar
a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os
ouvidos, falar sobre o que nos
acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros,
cultivar a arte do encontro,
calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço
(Larrossa, 2002, p. 20-28).
Casinha se espalham pelo mundo
http://catracalivre.folha.uol.com.br/geral/cidadania/indicacao/pequenas-bibliotecas-em-formato-de-casinha-se-espalham-pelo-mundo/http://catracalivre.folha.uol.com.br/geral/cidadania/indicacao/pequenas-bibliotecas-em-formato-de-casinha-se-espalham-pelo-mundo/
quinta-feira, 14 de março de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Fernando Pessoa
Fernando de Noronha - PE/Brasil
É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Manuel de Barros

Sebastião Salgado - Foto
Aprendo com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu olho.
Ainda não aprendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
MANOEL DE BARROS
em Retrato do Artista Quando Coisa, Ed. Record, 1998
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