sexta-feira, 30 de julho de 2021

Minha escola

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário; Complicado como as Matemáticas; Inacessível como Os Lusíadas de Camões! À sua porta eu estacava sempre hesitante... De um lado, a vida... A minha adorável vida de criança: Pinhões... papagaios... carreiras ao sol... [...] Do outro lado, aquela tortura: “As armas e os barões assinalados! ” - Quantas orações? [...] Felizmente, à boca da noite, Eu tinha uma velha que me contava histórias... Lindas histórias do reino da Mãe D'Água... E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.
(FERREIRA, A. Poemas de Ascenso Ferreira. 5. Ed. Recife: Nordestal, 1995, p. 41).

Mário Quintana: "Emergência"

Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo – para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.
QUINTANA, Mário. "Emergência". In: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

O cataclismo e as canções Conceição Lima - O país de Akendenguê

Feliz o que de mim restar, depois de mim Se uma só das canções cantadas Viver além daquele que em mim agora canta Da hecatombe não salvaria contudo Uma só das canções que cantei e canto. Às entranhas do olvido Antes roubaria o riso das crianças E a idade do provérbio. Assim aos vindouros Intacto ofertaria o enigma da luz.
Conceição Lima - O país de Akendenguê

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Uma definitiva presença

Ela entrava na escola abraçando os nossos cadernos Avante. (A sala tinha cheiro de roupa lavada. Tudo limpo como água de mina e o mundo ficava mudo para escutá-la. Sobre a sua mesa pousava uma jarra sempre com flores do mato que os alunos colhiam pelo caminho.) Ao abraçar os cadernos era com se a professora me apertasse sobre o seu coração, perdoando, com antecedência, os meus erros e acertos. Eu ainda não lia ou escrevia de “carreirinha”. Mas seu olhar foi o meu primeiro livro! Ela me acariciava com seus olhos e derramava sobre mim uma luz mansa de luar, capaz de alvejar meu desejo obscuro de aprender. Seus olhos me permitiam a liberdade. Sua presença inteira me trazia uma paz azul e uma certeza de que o futuro era possível. É que dona Maria Campos levava nossas composições, ditados, cópias, para corrigir em casa. Eu morria de inveja do meu caderno por saber que ele conhecia onde a professora vivia. Seu lápis, metade azul e metade vermelho, bordava em nossos trabalhos as notas que iam de 0 a 10. E trazia sempre uma observação: “muito bom”, “parabéns”, “ótimo”, “mais atenção”, “é preciso estudar mais”. Eu recebia meu caderno com o coração descontrolado. Parecia que uma borboleta tinha vindo morar em meu peito. Tinha medo de não corresponder aos seus ensinamentos. Não queria que a professora deixasse de me amar. E como dona Maria Campos sabia! Para tudo ela tinha uma resposta ou outra pergunta na ponta da língua. Dava aulas como se estivesse recitando uma poesia feita de água, névoa ou nuvem. Eu achava minha professora mais bonita que os poemas. E não era difícil decorar os versos e repeti-los depois, no escuro do meu quarto. Guardava tudo de cor sem esforço. E quando ela pegava no giz branco e passava o ponto, no quadro-negro, eu mordia a ponta da língua esforçando-me para imitar sua escrita. Ela fazia as letras tão bonitas que não me bastava apenas copiar: eu desejava aprender também a sua letra. E como me emocionavam aqueles “eles” como orelhas de coelho espantado. Em meus momentos de calma eu enchia páginas e páginas com seu nome, o nome de minha mãe, de meu pai, de minha escola. Era minha maneira de ter sempre dona Maria Campos ao meu lado. E quando escolhido para passar o ditado no quadro, para os colegas corrigirem o deles, mais eu caprichava na letra. O difícil era o quadro não ter linha, pois seguir em linha reta, sem estrada, dependia também do olhar. Mas para alegrar a professora toda dificuldade era pouca. Se ela elogiava, eu baixava a cabeça. Por fora muita vergonha e por dentro um herói. Nas horas de leitura em voz alta eu não media esforços. Cada menino lia um pedaço. E a professora escolhia alternado. Ninguém sabia sua hora. Eu acompanhava as linhas do livro com o dedo. Cheio de medo e desejo esperava minha vez. Lia devagar cada palavra, obedecendo à pontuação, controlando o fôlego. Dona Maria Campos dizia que nas vírgulas a gente respirava e no ponto final dava uma paradinha. Mas o melhor era quando ela nos mandava guardar os objetos. A gente fechava o caderno, guardava o lápis e a borracha dentro do estojo e esperava com os braços cruzados sobre a carteira. Assim, ela continuava mais um pedaço da história. Parecia com a Sant´Ana da capela com o livro no colo. Eu não acreditava que podia existir outro céu além da nossa sala de aula. Ficava intrigado com num livro tão pequeno cabia tanta história, tanta viagem, tanto encanto. O mundo ficava maior e minha vontade era não morrer nunca para conhecer o mundo inteiro e saber muito, como a professora sabia. O livro me abria caminhos, me ensinava a escolher o destino. Eu pedia o livro emprestado, depois que a dona Maria terminava. Levava para casa e brincava de escola com meus irmãos menores. Assentava com o livro, com pose de professor, e lia para eles. Era difícil guardar tanta beleza só para mim. Não sei se gostavam de leitura ou se imaginavam, um dia, serem alunos de minha escola. Meu pai, assentado na escada da casa, prestava atenção na minha leitura, de maneira despistada. De noite, antes de dormir, curioso, ele queria que eu adiantasse um pouco mais da história. Mas eu não contava. Sabia que imaginar fazia parte da leitura. Fragmento: Contos e poemas para ler na Escola Bartolomeu Campos de Queirós.

Coragem e liberdade

Descobri que a aba que protegia a caixa de correios servia para me impulsionar a subir no muro da casa. Quando precisava chegar um pouco mais tarde, deixava a porta da biblioteca aberta, subia pela aba da caixa dos correios e subia no muro, depois alcançava o telhado da garagem que dava acesso a varanda da biblioteca. Literalmente, conseguia minha liberdade por meio do muro, da caixa dos correios e a porta da biblioteca. Papai colocava um sininho na porta para despertar descobrir que horas eu chegava em casa, às vezes, eu amarrava o sininho e ele descobria. Ele não dizia nada e eu muito menos. Quando se tem uma matriz indígena, não brigamos, apenas não obedecemos. Tudo isso para ficar um pouco mais com xs amigxs e burlar o horário determinado para minha chegada que nunca poderia passar da meia noite. Depois fotografo para vocês terem ideia da minha ousadia. É muito difícil ser mulher, se era na minha geração, imagina na geração da D. Lourdes. Ana Raquel França