terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Natal de 2012




                 Quadro - Cláudio Pastro

Ao contemplar o mundo, a natureza,penso na magnitude de Deus.

A vivenciar as várias formas de amor: filial, maternal, paternal, fraternal, conjugal, experimento a magnitude de Deus.

Penso que não é por acaso que estamos nessa imensa cadetral que é a Pachamama, vivemos para sentir a magnitude do Divino e preservar o que foi por Ele cuidadosamente pensado.

A cada Natal renovamos nosso compromisso com Esse Deus Menino, que nos lembra  nesta noite especial, que devemos garantir durante todo o ano que vem, a presença constante da humildade, fraternidade, solidariedade, acolhimento e justiça social.

Feliz Natal e Feliz Ano !

                       Um abraço grande,
                             com carinho e amizade


                                                                            Ana Raquel e Família

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Por Mia Couto





Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado ansiando
a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço


(Mia Couto, 1999)

domingo, 25 de novembro de 2012

O milagre das folhas


Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que são de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzí¬-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como
o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Velho sábio - krajcberg

Felicidade clandestina - por Clarisse Lispector




Felicidade clandestina - Clarice Lispector

Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Pensando com Morin...

Hoje estamos na escuridão e bruma e ninguém pode predizer o amanhã. É preciso, portanto, prepararmo-nos para o nosso mundo incerto e aguardar o inesperado. Morin, 2006 (Livro: Cabeça bem-feita)
Foto: krajcberg

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A "outreidade" no olhar de Sebastião Salgado




“Minha maior esperança é provocar um debate sobre a condição humana do ponto de vista dos povos em êxodo de todo o mundo. Minhas fotografias são um vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece. Espero que a pessoa que entrar numa exposição
minha não saia a mesma.”
                                                                           (Sebastião Salgado)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Intocáveis

Um filme que ficará na memória....


O pensamento de Edgar Morin

É preciso substituir um pensamento que isola e separa por um pensamento que distingue e une. É preciso substituir um pensamento disjuntivo e redutor por um pensamento do complexo, no sentido originário de termo complexus: o que é tecido junto. Edgar Morin


                                             http://www.youtube.com/watch?v=shOEPRPDZEY

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sofia e sua ET Sonora



Quando todos os sentidos estão envolvidos no processo de aprendizagem, os alunos não somente podem aprender de forma mais adequada ao seu estilo, mas desenvolver todo um repertório variado de estratégias de pensamento (Willians, 1986:21). 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Educar

Educar para o sentirpensar é educar no caminho do amor, da inteireza e da sabedoria. É educar o outro na justiça e na solidariedade. Educar para sentirpensar é tentar formar na unicidade; é educar na biologia do amor, reconhecendo que a emoção é a base da razão.
                                             Maturana, 1999





quarta-feira, 27 de junho de 2012

Impressionista - Adélia Prado

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo. 




Mar...


Mar sem fim... (fragmentos)



Amyr Klink

Do sul do Paratii, do porão, vinha um barulho novo. Nas últimas semanas eu me tornava um verdadeiro caçador de sons. E caçá-los apenas não bastava, era preciso identificar sua origem. Pequena paranoia marinheira? Talvez. Mas nenhum barulho me incomodava se eu soubesse do que se tratava. Uma garrafa de azeite batendo na cozinha, uma lata de óleo no porão, o som de cuíca do pé do mastro – diferente do grunido externo do mesmo pé. As “vozes” das buchas do leme, inaudíveis do lado de fora, dentro lembravam um chá de animadas senhoras conversando. Toda sorte de sons havia agora.
Desci para o salão, tateando os cantos tentando encostar o ouvido nas paredes, com as luvas penduradas nos dentes. Logo descobri que o sino metálico e irregular que batia estava na famosa caixa de sucatas; duas barrinhas de inox rolando para os lados a cada tombo de uma onda.
Enquanto voltava a travar a caixa no fundo com uma das mãos apoiada na estante, dei com os olhos num livro ainda virgem. Título: Sauvé. Sim senhor, Salvo. Presente do Júlio meses antes, e que por falta de tempo não abriria. Puxei o livro e subi para a mesa de navegação. E não dormi mais.
Maldita ideia, abrir o livro. Era o relato de sobrevivência de um dos resgates mais espetaculares já ocorridos no South-ern Ocean, durante a regata de volta ao mundo solitário – a Vandée Globe – terminada no ano anterior. Essa prova realizada em solitário, sem escalas, é , de longe, o desafio esportivo mais extenso e impressionante que conheço. No Brasil, infelizmente, país de esporte fechados em alambrados, não se noticiam provas como essa, em que a pista de corrida é o globo. Onde a resistência e a competência são testadas não por noventa minutos, mas por quatro meses seguidos, vinte e quatro horas por dia, no mais respeitável de todos os oceanos. Sempre fui fascinado por essas provas longas, em que, além da resistência, há o desafio da gestão, da estratégia, e do respeito aos materiais e ao meio.

sábado, 31 de março de 2012

Por Fernando Pessoa





"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;

As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,

Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."

terça-feira, 27 de março de 2012

Reflexões sobre a vida marinha

Hoje centenas de tartarugas entraram no mar pela primeira vez na praia de Intermares - PB. 
Minha filha perguntava se elas iam a procura da mãe...


Disse que as tartaruguinhas não conhecerão as mães, pois elas depositam os ovos e saem para 
mar.Percebi uma certa tristeza nos olhos da minha filha, afinal ela conhecia o conforto de ter família e para ela todos/as precisam ter o aconchego de uma mãe.


Olhou para o mar e desejou acolher as tartarugas como filhas/os respondendo a sua natureza maternal.

Poema de Alberes Mendonça

A concha



Ninguém sabe do mar
Contido na concha.
Tão puro e extenso
Esse mar,
Que para banhar-se
É necessário desnudar a alma
E os ouvidos.
Ninguém sabe dos barcos
Naufragados na concha.
Submersos,
No fundo,
No fundo
- Jazidos.
Ninguém sabe dos nascidos
Do mar
Na concha!
Pega uma e ouvirás
O infinito que ela carrega
- Escondido.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Partida das tartarugas urbanas - Foto: Saudade

Saudade - Pablo Neruda


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Você precisa fazer aquilo que pensa que não é capaz de fazer.

                                                                           Eleonor Rosevelt

Adele - Someone Like You (Live) 2011


A LENDA DE RUI BARBOSA


Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um ruído
estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão
tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do
indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus preciosos
patos, disse-lhe:
- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos
bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o
recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à
socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para
zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado,
dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o
farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinquagésima potência que o
vulgo denomina nada, transformando sua massa encefálica em meras
cinzas cadavéricas.

E o ladrão, confuso, pergunta: - “Dotô, afinal, eu levo ou deixo os pato?”

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Por Affonso Romano de Sant´Anna

Reflexivo (Affonso Romano de Sant'Anna)

O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.

Silêncio Amoroso - 2 (Affonso Romano de Sant'Anna)

Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ode ao Gato - Artur da Távola


Artur da Távola

Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor. Só as saudáveis.

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Só aceita relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão ou falso.

“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e o dá se quiser.

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio, é esperto. O gato é zen. O gato é Tao. Conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor, mas se lhe dá, então o exige.

O gato não pede amor. Nem dele depende. Mas, quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano, mas se comporta como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa a relação sempre precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Vê além, por dentro e avesso. Relaciona-se com a essência.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Les Choristes - ''Vois Sur Ton Chemin''

Perdoar...

\"... Aprendi, outro dia que perdoar
é a junção de \" per \" com \"doar\".

Doar é mais do que dar.
Doar é a entrega total do outro.
O prefixo \"per\" que tem várias acepções,
indica movimento no sentido \"de\"
ou em \"direção\" a ou \"através\"
ou \"para\" etimologicamente falando,
portanto, perdoar, quer dizer doar ao
outro a possibilidade de que ele possa amar,
possa doar-se.
Não apenas quem perdoa que se
\"doa através do outro\".
Perdoar implica abrir possibilidades de
amor para quem foi perdoado,
através da doação oferecida
por quem foi agravado.
Perdoar é a única forma de facilitar
ao outro a própria salvação.

Doar é mais do que dar: é a entrega total ...

Perdoar é doar o amor,
é permitir que a pessoa objeto do perdão
possa também devolver um amor que,
até então, só ne gara ...
Artur da Távola

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Citação do livro: o direito de ler e de escrever - Sílvia Castrillón

A leitura é um direito, não um luxo, nem uma obrigação. Não é um luxo das elites que possa ser associado ao prazer e à recreação, tampouco uma obrigação imposta pela escola. É um direito de todos que, além disso, permite um exercício pleno de democracia.
Emílio Ferreiro

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Pensamentos...

Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar.

Sophia de mello Breyner Andresen

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Por Fernando Pessoa

Pessoa sempre me surpreende com seus versos.


"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;

As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,

Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Recomendo o filme: Minhas tardes com Margueritte

O filme é absolutamente comovente e oferece ao expectador momentos únicos de reflexão...

Hoje morreu um dos meus escritores prediletos...

Hoje morreu um dos meus escritores prediletos...conheci a obra do Bartolomeu investigando livros doados pela FTD, nos final dos anos 80. Lembro-me que fiquei estarrecida quando terminei o primeiro livro que li dele: Ah! Mar!
Pensei...alguém enfim, escreve algo original e que une verso e prosa.
O que posso dizer para este autor?

Você me fez uma pessoa melhor depois que li suas  obras...guardarei seus livros, como jóias raras.

Assim escreveu Bartolomeu Campos de Queirós:

"Entre o adeus do sol e o boa-noite da lua, Ana se assentava com o livro aberto sobre os joelhos. Nesta hora, um sossego mora no céu e visita a vida. Não há tristeza. Anjos voam  acendendo estrelas. Só o silêncio vê. E eles cantam. A canção é leve, acompanhada de flauta, violinho e cítara. Só o coração escuta. Mas Ana, por respirar a emoção da leitura, tudo via e tudo escutava. Ao ler, também se vê e se escuta".
Em O Livro da Ana - BCQ, pg. 9

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Poeta português - Alexandre O' Neill - 1924 a 1986

Há Palavras que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'
Tema(s): Beijo Palavra