sábado, 26 de dezembro de 2015

A Demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in " idades cidades divindades"


 

 

 

 

 

 

 

 

Gravura: Charlotte Hardy

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

REFLEXÃO DE NATAL – 2015


 
Uma dos principais desafios que o Natal nos impõe é a grande oportunidade de pensar sobre o conceito e família. Jesus em sua grandeza de menino Deus mostra a partir de sua história tão simples, a grandiosidade da capacidade de acolher o outro, o estrangeiro.
Sendo assim, imaginemos como que seria hoje o presépio? Que desafios este Natal de 2015 nos ensina?
Que lugar seria hoje a manjedoura? Quem é a família de Nazaré que devemos acolher?
Em meio à explosão de consumo, existem pessoas que no seu anonimato acolhem de fato a quem precisa. Em várias partes do mundo e no Brasil, com ajuda de anônimos, vemos pessoas que cruzam fronteiras (nacionalidades, regiões, credos, etnias, orientações sexuais) e se atrevem a verdadeiramente fazer com que o Natal não se restrinja a uma data específica, mas que seja todo dia numa ação diária de acolhimento e partilha.

Seja na preocupação que temos com os desabrigados da tragédia de Minas Gerais,
Nas vítimas do atentado em Paris, Palestina, Israel...
Na reflexão sobre os milhões de refugiados da Ásia ocidental,
Nos atingidos por desequilíbrios ecológicos ao redor do mundo,
Nos que sofrem todo o tipo de preconceito: social, étnico, sexual e religioso.
Então, devemos nos perguntar:
Que responsabilidade eu tenho em relação a este mundo?
O que Deus Menino, na sua humildade e pobreza nos pede para enxergar no conceito de família que eu ainda não enxergo?
Cada um precisa se descobrir como parte do ecossistema local e da comunidade biótica, seja em seu aspecto de natureza, seja em sua dimensão de cultura (Boff, 2000).
Somos tod@s uma família e tudo que acontece com meu (minha) irmão (irmã) afeta a mim também. Vivemos em uma aldeia global. Por isso, a imensa urgência de se cuidar da vida, da biodiversidade e da justiça social.
Na prática, a sociedade deve mostrar-se capaz de assumir novos hábitos e de projetar um tipo de desenvolvimento que cultive o cuidado com os equilíbrios ecológicos e funcione dentro dos limites impostos pela natureza (Boff, 2000).
  
Eis a manjedoura do Filho de Deus no meio dos homens, um convite para acolher a sua misericórdia, pois "Ele nos enriquece com sua pobreza".

Desejo a tod@s, não um simples Feliz Natal, mas um momento de refletir sobre o grande significado que existe no conceito do que é ser família.