sexta-feira, 16 de outubro de 2020

De repente...

                                                                                           fonte: pinterest

Foram cancelados os concertos por todo o mundo.

Perdemos as apresentações de março de 2020 que seriam executadas

pela OSUFPB.

Não ouvimos Mozart, Haydn, o romantismo de Puccini, Liszt, Tchaikovsky, Krieger.

Brahms e Mendelssohn foram os últimos a terem suas composições tocadas...

 

Nossos planos de um ano musical se tornaram possíveis apenas virtualmente.

O cheiro do breu que é passado nos arcos dos instrumentos de cordas

deixou de exalar.

Os acordes nervosos dos músicos afinando os seus instrumentos

antes de iniciar as apresentações cessaram.

Onde haveria música, há silêncio.

Um silêncio que nos impressionou.

 

As poltronas vermelhas da Sala de concerto Radengundes Feitosa

se tornaram vazias de uma plateia apaixonada, que esperava ansiosamente

o próximo espetáculo.

 

Os instrumentos de sopro, percussão se calaram...

Os aplausos da plateia e o sorriso no rosto não ocuparam aqueles lugares.

 

Escutamos a frase:

 

“Não podemos respirar!”

Silêncio

Neste momento houve respeito à dor que circulou nos quatro cantos do mundo.

 

Que música poderia representar este momento?

 

O “Inverno” de Vivaldi,  ou

O “Largo ma non tanto” do concerto para dois violinos de Bach.

Pergolesi em “Sabat Mater dolorosa”.

 

"Misere mei, Deus!", Allegri suplica por meio de sua música.

 

“Tende piedade de mim, Deus!”.

 

Tende piedade de nós!

 

Alonso Lobo, a partir da “Versa est in luctum”, retrata a nossa dor.

 

“Minha harpa voltou-se ao luto
e minha flauta à voz dos que choram.
Apiedai-vos de mim, Senhor,
pois como nada são os meus dias”.

 

Réquiens me vêm à cabeça.

Mozart nos comove com tamanha beleza.

 

“Diante de ti toda carne comparecerá

Repouso eterno dá-lhes, Senhor

Que a luz perpétua os ilumine

Senhor, tem piedade!”

 

Perdemos Ennio Morricone em tempos tão duros.

Como expressar a perda de um dos nossos maiores compositores?

Nunca esqueceremos do seu Cinema Paradiso.

 

“Se você estivesse em meu coração apenas por um dia
Você poderia ter uma ideia
Do que eu sinto

...
Respiramos o mesmo ar

 

O papa, na Praça vazia, lembrou:

 "Estamos todos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho"

Aconteceu um silêncio obsequioso de quem sofre uma dor mundial.

 

Fez-me lembrar da música “O navio de Bayonne”.

Alaúdes, tambores, percussão, charamelas, flautas, vielas

e vozes se unem.

 

“No grande navio de Bayonne”,

“O vento do norte subiu,

Arriscando destruir a vela grande,

Grande Deus, que horrível tormenta!

Metade de nós estava chorando,

Os outros cantavam louvores.

Que Deus tenha piedade de nossas almas,

Porque a morte é quase certeza.

Nós recebemos um golpe de mar,

...

No fundo do nosso navio,

É hora de jogar os botes,

Para chegarmos todos a um bom porto,

O capitão deu um passo à frente,

Coragem, minhas crianças, coragem!

Para que nosso navio passe por isso.

Rezas foram feitas

Que salvaram suas vidas”.

 

Que outras composições lembram este tempo de trevas e escuridão?

Que devir poderá surgir?

 

Queremos a “Primavera”, de Vivaldi.

Sons que nos enchem de cores a vida.

As flautinhas e violinos de “Brandenburg no 1.

Ritmo quase que frenético de sopros e cordas.

 

O violino decidido da “Passacaglia” de Handel,

pressupõe resistência e luta.

 

Ou quem sabe a “Ode a Alegria”

da 9ª sinfonia?

 

“Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado”

 

O início dos pizzicatos das “Bachiana n° 5”  anuncia o surgimento da recuperação

e a esperança da população ainda atormentada.

 

Ou o intrigante “Uirapuru” de Villa Lobos,

que nos desperta afirmando: a natureza se regenera após um tempo

de silêncio e enclausuramento!

 

Uirapuru, Uirapuru!

 

“A mata inteira fica
muda ao seu cantar
Tudo se cala para
ouvir sua canção”

 

Precisamos respirar e iniciar tudo novamente.

 

Tocar o oboé de “Gabriel” de Morricone.

 

Instrumento de sopro,

ensina-nos que a música deve ser

contínua,

densa,

capaz de tocar os mais profundos sentimentos e

trazer esperança à plateia extasiada,

 

Penélope Basileia.

Inspiração a partir da música 

La Navire de Bayonne - canção tradicional

francesa do século 18 

Le Navire de Bayonne

sábado, 10 de outubro de 2020

Amanhecer


                                                  Foto: Sabrina Organa

 03.10.20 (Pandemia)


Que eu seja aurora para os outros

Que eu possa iluminar apesar das 

nuvens e sombras


Luz que aquece

Sorriso confiante

 

Dai-me a beleza 

dos céus de outubro

Ensina-me a levantar

A não esmorecer nessa jornada

tão dura que é a vida.


Que possa sentir, Senhor!

Sua luz iluminando meu corpo.

Que possa sentir o vibrar dos 

passarinhos que se agitam logo

ao amanhecer.

Voar livremente e serenamente

por esse universo iluminado.


Luz que aquece

Sorriso confiante


Ajuda-me a levantar 

e seguir essa luz que sai 

deste horizonte único.

Resgata-me da escuridão, do medo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"Felicidade"



O futuro não é promessa. 

Sem pressa.

O certo é a delícia

do agora. Ser feliz


é poder sentir

que a hora 

é esta. A festa

não está por vir.


Gatos sabem disso,

Cães sabem também.

Flores sabem e, sábias,

Não espalham.

sábado, 3 de outubro de 2020

Sessão de terapia


Agora dei pra sonhar com mortos, com meus mortos todos! Aguns vêm abertamente e se fazem de vivos: conversam, tomam café, dão conselhos… Só quando acordo lembro que aqui já não estão.
Outros são menos atrevidos, chegam timidamente, com jeito de quem não está a vontade…
Inda outro dia acordei com um deles puxando meu pé. "Virgem" - pensei - "é agouro...Não me bastasse o vírus, agora, nem dormir direito eu posso".
Penso no livro de Gabriel Garcia Marquez, "Crônica de uma morte anunciada". Pra completar, os galos aqui em casa deram pra cantar fora de hora… A finada Rosa dizia que galo quando canta assim, coisa boa não anuncia…
Agora, falando contigo, tenho o corpo gelado. Não, não estou morto, o gelo é da ansiedade, mesmo… Dia desses liguei para minha irmã: "mana, ontem sonhei na casa de fulana (uma senhora já falecida)". A mana respondeu: "eu sonhei foi com tio Belo, me abraçando". Tio Belo?! É um dos inúmeros tios, também já ido. Suspirei de alívio e pensei "se for agouro, ao menos sei que não vou sozinho".
Acho que a morte só é mais tenebrosa porque é algo que encaramos sozinhos, sem companhia...A morte é a solidão de nossa solidão… Não aceita parceria: é só ela e cada um de nós… Solitariamente… Tá aí uma das dificuldades de sua aceitação: esse não respeito da morte pela nossa condição de animais sociais e, portanto, gregários...Fosse algo que pudéssemos encarar acompanhados, talvez não sofressemos tanto…Mas não, cada um tem a sua morte. Algumas mais pesadas, outras nem tanto.
Eu sonho é mesmo em ser agraciado com a "morte dos justos", esta que nos leva dormindo, bem no meio de um sonho bom. Sempre invejei os que assim morriam, só não sabia mesmo era a denominação adequada, até que um dia, após narrar para minha manicure a morte de uma senhora querida, ela bate com as duas mãos e exclama alto: "essa ganhou na loteria, morreu dormindo, a morte dos justos"…Depois desse dia o tema virou mote de minhas orações: "que eu seja agraciado, Senhor, com a morte dos justos!" Mas sempre acrescento: "e que ela demore a chegar"…
Para falar da morte os gregos inventaram o mito das moiras, fiandeiras que teciam a vida de deuses e homens. Eram elas três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio de nossas vidas. Essa imagem da vida sendo tecida sempre me fascinou… Nós somos a fiandeiras e os fios... Viver é tercer-se, se construir enquanto se constrói o mundo, com materiais pelo sujeito nunca escolhidos…. Ocorre que o desenho nunca ficará completo, pois em algum momento o fio que somos nós, será cortado...Então, não seremos, teremos sido.
Falando assim, vou percebendo que a morte talvez não importe tanto, que o importante mesmo seja o que estamos a fazer de nossas vidas...O desenho... Será que é isso que os meus mortos estão me perguntando???
Marcelo Saturnino da Silva
Clévia Cunha de Carvalho, Rita Rocha e outras 55 pessoas
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Agora dei pra sonhar com mortos, com meus mortos todos! Aguns vêm abertamente e se fazem de vivos: conversam, tomam café, dão conselhos… Só quando acordo lembro que aqui já não estão.
Outros são menos atrevidos, chegam timidamente, com jeito de quem não está a vontade…
Inda outro dia acordei com um deles puxando meu pé. "Virgem" - pensei - "é agouro...Não me bastasse o vírus, agora, nem dormir direito eu posso".
Penso no livro de Gabriel Garcia Marquez, "Crônica de uma morte anunciada". Pra completar, os galos aqui em casa deram pra cantar fora de hora… A finada Rosa dizia que galo quando canta assim, coisa boa não anuncia…
Agora, falando contigo, tenho o corpo gelado. Não, não estou morto, o gelo é da ansiedade, mesmo… Dia desses liguei para minha irmã: "mana, ontem sonhei na casa de fulana (uma senhora já falecida)". A mana respondeu: "eu sonhei foi com tio Belo, me abraçando". Tio Belo?! É um dos inúmeros tios, também já ido. Suspirei de alívio e pensei "se for agouro, ao menos sei que não vou sozinho".
Acho que a morte só é mais tenebrosa porque é algo que encaramos sozinhos, sem companhia...A morte é a solidão de nossa solidão… Não aceita parceria: é só ela e cada um de nós… Solitariamente… Tá aí uma das dificuldades de sua aceitação: esse não respeito da morte pela nossa condição de animais sociais e, portanto, gregários...Fosse algo que pudéssemos encarar acompanhados, talvez não sofressemos tanto…Mas não, cada um tem a sua morte. Algumas mais pesadas, outras nem tanto.
Eu sonho é mesmo em ser agraciado com a "morte dos justos", esta que nos leva dormindo, bem no meio de um sonho bom. Sempre invejei os que assim morriam, só não sabia mesmo era a denominação adequada, até que um dia, após narrar para minha manicure a morte de uma senhora querida, ela bate com as duas mãos e exclama alto: "essa ganhou na loteria, morreu dormindo, a morte dos justos"…Depois desse dia o tema virou mote de minhas orações: "que eu seja agraciado, Senhor, com a morte dos justos!" Mas sempre acrescento: "e que ela demore a chegar"…
Para falar da morte os gregos inventaram o mito das moiras, fiandeiras que teciam a vida de deuses e homens. Eram elas três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio de nossas vidas. Essa imagem da vida sendo tecida sempre me fascinou… Nós somos a fiandeiras e os fios... Viver é tercer-se, se construir enquanto se constrói o mundo, com materiais pelo sujeito nunca escolhidos…. Ocorre que o desenho nunca ficará completo, pois em algum momento o fio que somos nós, será cortado...Então, não seremos, teremos sido.
Falando assim, vou percebendo que a morte talvez não importe tanto, que o importante mesmo seja o que estamos a fazer de nossas vidas...O desenho... Será que é isso que os meus mortos estão me perguntando???
Marcelo Saturnino da Silva
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