sexta-feira, 11 de novembro de 2022
Esta ave...
Esta ave
Abre as asas
Entre a Grécia
E a Alemanha,
Tão clássica
É sua ideia.
Essa ave lembra
O corvo de Poe
E o espírito de união
Que dizem ter descido
Sobre os amigos
De Cristo.
Mas, não!
Ela é só mais uma,
Como tu e eu,
Contente por estar viva
Mesmo sem ser anjo.
Ela é a pomba da Razão!
B.C.
domingo, 26 de junho de 2022
Jakub Józef Orliński
Minha grande descoberta da Pandemia.
Jakub Józef Orliński - simplemente fantástico.
quarta-feira, 27 de abril de 2022
BEM CEDO - Wislawa Szymborska
Ainda durmo,
mas enquanto isso as coisas acontecem.
A janela embranquece,
a escuridão se acinzenta,
o quarto emerge de um espaço indefinido,
listas pálidas e instáveis buscam apoio.
Na fila, sem pressa,
pois isso é uma cerimônia,
amanhecem as superfícies do teto e das paredes,
as formas se destacam
umas das outras,
as da esquerda das da direita.
As distâncias entre os objetos vibram,
as primeiras luzes cintilam
no corpo, na maçaneta.
As coisas deixam de ser impressões, já existem,
como o que ontem foi deslocado,
o que caiu no chão
e o que está contido nas molduras.
Apenas os detalhes continuam invisíveis.
Mas atenção, atenção, atenção,
tudo indica que as cores estão retornando
e mesmo a mínima coisa recebe de volta sua matiz,
acompanhada de uma ponta de sombra.
Raramente isso me surpreende, mas deveria.
Normalmente eu acordo, testemunha atrasada,
o milagre finalizado,
o dia definido
e a aurora magistralmente transformada em manhã.
sexta-feira, 22 de abril de 2022
11o par de Cartas - Ruth Vasconcelos
"Sempre gostei de pensar a vida como um jogo, mas parece que estou levando essa metáfora muito a sério(refiro-me ao cronômetro). E é isso mesmo: os lances da vida são únicos, irrepetíveis; as oportunidades e composições das jogadas são singulares e a interação da equipe em campo parece ser o maior segredo da vitória. Tive o privilégio de crescer numa família de atletas. Meus pais foram atletas quando jovens e meus irmãos colecionaram títulos de campeões. Cresci neste ambiente saudável, onde o jogo fazia parte da dinâmica familiar. Eu própria fui campeã brasileira de handebol e as competições de que participei ainda hoje me servem de exemplo de como é participar de disputas sem querer destruir o "adversário", que jamais pode sesr visto como um "inimigo". Aprendi com as regras do esporte que sem o adversário o jogo não acontece.
...
Pude vivenciar e aprender, como atleta, a virtude dos sentimentos de solidariedade, lealdade, reciprocidade, fidelidade, companherismo, compaixão, partilha e respeito nos espaços das quadras esportivas".
quinta-feira, 31 de março de 2022
10 o par de Cartas - Ruth Vasconcelos
[...] Concordo plenamente com o diagnóstico que você faz da Medicina hoje;
estamos vivendo um tempo sombrio de desumanização, em que o sofrimento humano
não causa comoção nem indignação social. Uma naturalização de cenas que são
construções estupidamente humanas. Quero dizer: o descaso com a saúde pública
não é um fenômeno natural, é uma postura social, fruto de decisões humanasa,
demasiado humanas, que desvalorizam a vida e banalizam a morte. Quem não já
assistiu a cenas de pacientes estendidos pelos corredores de hospitais públicos;
de mães desesperadas com seus filhos ao colo, vendo suas vidas se esvaíram sem
qualquer assistência médica; [...] 10o par de cartas, pág 192
terça-feira, 29 de março de 2022
9o par de cartas - Ruth Vasconcelos
[...] tivemos a presença de dois jovens integrantes do Movimento Nacional de Moradores de Rua, além de mim e de um francês com formação em Psicologia Política. [...]Uma das lideranças da Rua retornou o tema afirmando que a maior violência que vivencia no espaço público é a indiferença e o não-reconhecimento dos transeuntes que, geralmente, são tratados com desamor e desafeto. Este, que ficou órfão desde os 3 meses de idade e foi criado num orfanato até os 14 anos, momento em que foi morar na rua, afirmou ser uma pessoa muito afetuosa, mas que não podia receber nem dar este afeto no espaço da rua porque sempre é visto como uma pessoa perigosa, como um mendigo que suja e enfeia as ruas; portanto, que precisa ser expurgado da cidade.
Num gesto quase poético, fez a seguinte reflexão: "A rua não tem portas. Eu não tenho casa, mas se tivesse, minha casa não teria portas; pois para mim as chaves são formas de poder que eu não tenho vontade de excercer".
pág 163
8o par de cartas
Freud afirma que procuramos enfrentar o "enigma da existência" por três caminhos diferentes: a ciência, as drogas e a religião. O caminho da ciência me deu, até o momento, algumas respostas, sendo, sem sombra de dúvida, uma fonte de realização profissional e preenchimento existencial; o caminho das drogas, que oferece um mundo bastante sedutor e atraente, jamais me encantou; e o caminho da religião, uma experiência eminentemente subjetiva, tem sido meu esteio e minha âncora para suportar as tantas dores da existência.
8o par de cartas - Ruth Vasconcelos, pg.142
segunda-feira, 28 de março de 2022
O olhar
Não vês que o olho abraça a beleza do mundo inteiro? [...]É a janela do corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitando a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento [...]Ó admirável necessidade! Quem acredita que um espaço tão reduzido seria capaz de absorver as imagens do universo? [...] O espírito do pintor deve fazer-se semelhante a um espelho que adota a cor do que olha e se enche de tantas imagens quantas coisas tiver diante de si.
Leonardo da Vinci
segunda-feira, 21 de março de 2022
Onde está o tesouro? fragmento
Estimada Amiga Socióloga, conhecemos a alegria, o olhar compassivo, "o desejo de ser cada vez melhor" visíveis no amante. Parece que, realmente, o amor catalisa reações biopsíquicas e espirituais capazes de promover comportamentos inclusivos, inclinando os individuos à solidariedade. à compreensão e ao perdão.
...
Analisando-o a partir de uma relação de gênero, tudo começa com um enamoramento no qual o par humano se envolve e, na melhor hipótese, evolui para a construção de um "nós" maiúsculo, rico de respeito, estima, confiança, cumplicidade tranparente e espontânea.Esse fenômeno pontual produz ressonância que se espraiam ao redor, envolvendo o próximo, a humanidade inteira... e se refletem irisadas sobre o par original, aproximando-o mais ainda.
Onde está o tesouro - 3o par de cartas
Everaldo Alves Lopes Ferreira, pág 64
domingo, 20 de março de 2022
José - Bartolomeu Campos de Queirós
José
Antes da madrugada, quando tudo - casa, árvore, memória - flutua entre poeira de neblina, prata e frio, José se enveredava pela floresta para o corte da madeira. Ao ritmo do cajado e das sandálias, entre ruídos de outono e gravetos, seu espírito vinha se debruçar em seus lábios e resmungar matinais. Preces que atravessando pássaros acordavam cores no sono do horizonte. José despertava o mundo.
Se resinas escorregavam das achas, cantando aromas, José verdejava em orações. Se fibras do lenho insinuavam desenhos de planície e distâncias, ele se detinha para melhor conter o encantamento. E ao contemplar as mãos ásperas pelo martelo, plaina, goiva, José se via forte para servir em trabalho.
Assim manso, a paz rabiscava em seu rosto breves rugas em doçura e fortaleza. Ungido pelo suor, José se recolhia em solitário silêncio para melhor atotar o destino.
Um dia, *enquanto repousava entre sombra e cansaço, posou-lhe na mão, trazida sem acaso, uma semente grávida* - ventre com fruto e futuro. José ao se refazer do anúncio, soube haver um pai anterior a todo nascimento. Nesse meio-dia *brotou em seu cajado um ramo de lírios*, quase que preludiando posteriores admirações.
domingo, 9 de janeiro de 2022
Quadras (1939)
Os remos batem nas águas:
têm que ferir, para andar.
As águas vão consentindo -
esse é o destino do mar.
Cecília Meireles.
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