sábado, 9 de janeiro de 2021

Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar. Amor pra mim é ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo.

Adélia Prado

Reza



Pedro Stkls

começar um poema perdido na maré
começar a achar que do outro lado
uma canoa me espera
e você achando que
vou indo lá me embora sem ti
quando sei que essas tuas águas
não me visitam mais
nem o teu breu de quarto
e aquelas tonturas de amor
talvez seja melhor colocar na mala
um cheiro de capim santo
e doses de alecrim
pra distrair o cheiro que você me arrumou
e que ficou guardado
eu não consigo esquecer
eu não consigo passar um café
sem antes passar nas memórias
que eu guarde para o dia do fim
e o fim é agora
é hoje
acho que me distraí no mangue
que vim rolando até aqui
com os joelho ralados
nem violeta com pião roxo cura
o que cura é você chegando
de canoe, zé
trazendo o peixe preu me distrair
só pra ouvir você dizer
que delicadeza! que senhora! que deusa"
eu só queria te dizer
que eu aprendi que o infinito
é o mesmo que um rio de estrelas
não se acaba assim
por que ir se aqui ainda tem tanto amor?
tem a lida o cuidar com os bichos
tem à noite a luz da lamparina
tem agora meu coração
que passa frio
você é um sujeito-saudade
coisa de vento que só toca a gente
aqui dentro de mim
você é um peixe que nada
e eu não sei disfarçar
eu te ponho no meu potinho de açúcar
e da nada adiante
eu te quero amarrado na minha sala de chita
preu rodopiar sem pedir licença
para vida ou pro mundo
pra natureza ou pra qualquer santo
eu já tomei um banho de ervas
já ouvi tantas pessoas dizerem
ela não é mais
ele era
e eu digo é impossível
ele tá aqui nas tábuas do assoalho
no meu altar de santo
no campo serrado
no rio quando vai chegando
a dona castorina me disse
que eu carrego um amor muito forte
que isso é capaz de enlouquecer
como quando corri pelo terreiro
e não te achava
como quando eu te esperei
e você não chegava
eu ano achando que você deixou
um canoa à minha espera
porque anda pensando que vou sem ti
o nosso filho me disse
que eu não acreditassse na morte
e que agora é você quem acende os vaga-lumes.




Silêncio (ou Do dever da escrita)

 


Quantas vidas se passaram

Em silêncio? Tantas e mais tantas

Que delas é feito o tempo.

 

Pequenos grãos, pedrinhas

Que se apagam, mas fazem

Juntas a estrada. Cascalhos

 

Que se tornam leito

De imenso rio de histórias.

De silêncios aprendo

 

Lentamente a explorar

A beleza que se desfaz

Caso eu fale. Mas é preciso,

 

Ao menos, escrever,

Para conseguir fotografar

O átimo de fogo no tempo

 

Que me consome.

Se eu as tiver mostrado,

Evocado, comunicado,

 

Serei, com elas, vida,

Sentido, rio, instante,

Pedregulho, silêncio.

B.C.

07 de janeiro de 2021,

ouvindo Ludovico Einaudi

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O segredo!

 O segredo é o seguinte (vale ouro): você escreve 1 como quer; depois, corrige; depois sintetiza; deixa descansar (passa umas horas longe, geralmente dormir nelas é bom); "a massa" cresce fora e dentro de você; você sintetiza a síntese; deixa descansar de novo (igualmente ao processo anterior); volta; sente que está pronto; deixa descansar pela terceira, quarta vez; lambe como se fosse cria. Depois do sétimo dia, descansa.

Quem inventou a receita? Deus (dizem por aí...)




terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Um sonho

 

Ontem eu sonhei o teu sonho.
Sonhei que os soldados,
cantando e dançando,
libertando-se de todo mal,
surgiam de todos os lugares
para velar o funeral
de todo arsenal
das ogivas nucleares.
No sonho,
os homens não eram escravos
nem de si, nem dos outros,
tampouco das cores,
pois o dinheiro
havia sido morto
no combate com o amor.
As crianças,
cravo e canela,
dançavam com as flores,
como não tinham fome
caçavam estrelas
e quando cansadas
tornavam-se nelas!
Sonhei
que as mulheres e os homens
não tinham coisas, mas sentimentos,
e em sinal de alegria,
plantavam suas orações
não de mãos espalmadas,
mas de braços dados
com o milagre do dia.
E Deus - todo pequeno gesto de amor -
não frequentava igrejas,
livros ou estátuas,
apenas corações…
Ontem,
sonhei o teu sonho
sem saber que também era o meu.
Sérgio Vaz
*do livro "Colecionador de pedras" Global Editora