terça-feira, 18 de dezembro de 2018

"A um ti que eu inventei" - António Gedeão


Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

Foto: https://mariareginapittemonteiro.tumblr.com/post/123591800489

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Pássaro azul

Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair.

BUKOWSKI, 1992

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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Quando vier a primavera


Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 
// Consultar versos e eventuais rimas

A Primavera chegou no Japão e junto dela as primeiras cerejeiras começam a florescer. As flores de cerejeira (Sakura) são um dos símbolos mais belos e marcantes da cultura japonesa, despertando a p...
fonte: pinterest.com

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Mas não neva

Se aqui nevassse,
Nevaria agora
Num fino véu
De flocos leves.
Mas não neva,
Caindo, então,
Chuva bem fraca:
Tanto que flutua,
Como se o vento
Mais forte fosse
Capaz de devolvê-la
Às nuvens,
Ao profundo
Do céu...

Bruno Cartuniesi
26.07.18


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A velhice pede desculpas

Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1958)' 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Faz escuro mas eu canto - Thiago de Mello


Faz escuro mas eu canto,
Porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
Vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer  o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
Trabalhar pela alegria,
Amanhã é um novo dia.

Thiago de Mello

In: Faz escuro mas eu canto, 1966

wavemotions: “Just for fun~ by Jonathan Deitch ”
Fonte: https://br.pinterest.com/pin/41306521565677154/