terça-feira, 30 de junho de 2015

Gaia Ciência


Gosto de me iludir
...pensando
que hoje amo
melhor que ontem amei.

Assim desculpo o jovem afoito
que, em mim, me antecedeu
e, generoso,encho de esperanças
o velho sábio
que amará melhor que eu.



Affonso Romano de Sant ´anna
Em: Poesia Reunida (1965-1999)
Vol. 2, p. 202



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REDESCOBRINDO O AMOR DE CÃES




Autor: Affonso Romano de Sant´Anna


Devo confessar que os cães entraram muito tarde em minha vida. Antes olhava-os com distante complacência. Não os hostilizava, mas também não sucumbia à sua sedução. Mas as coisas começaram a mudar há algum tempo. Talvez seja aquela coisa da sabedoria popular que diz, que quanto mais a gente conhece os humanos mais gosta dos animais. Agora, por exemplo, nesse exato
momento, uma linda yorkshire com nome de fada escocesa - Pixie, veio enroscar-se nos meus pés, enroscar-se nas frases dessa crônica.
Da infância, além dos cães da vizinhança ficou-me na memória apenas aquele cão Veludo, num poema que a gente, entre lágrimas, ouvia nos concursos de declamação: “Eu tive um cão, chamava-se Veludo /Magro, asqueroso, revoltante, imundo/ Para dizer numa palavra tudo/ Foi o mais feio cão que houve no mundo”. Não me lembrava quem era o autor e agora, uma amiga, daquele tempo em que a “escola era risonha e franca”, me traz de volta a cópia do mesmo. Mas o que interessa é que o poema contava de maneira patética como aquele cão feíssimo abandonado por alguém na hora da partida deu provas de amor ao dono até à morte.
Outro dia estava em casa de amigos e quando me dei conta, a noite toda tinha se escoado com as pessoas contando só estórias de fabulosos, inteligentíssimos e amorosos cães que tiveram. Claro, tem sempre alguém que diz, que amou tanto o seu cão, que enviuvou-se dele para sempre e nunca mais terá outro.
Passei, portanto, a observar a sociedade canina com admiração crescente, o que, repito, não posso dizer das sociedades humanas. Já tinha me dado conta que um cão lá em minha casa, em Friburgo, era vidrado nos adágios de Beethoven e ficava felicíssimo ouvindo o Concerto para violino de Mendelssohn Já essa cachorrinha aqui surpreendia-a várias vezes vendo a novela das oito. Outro dia, no veterinário, a dona de um poodle, me perguntou ostensiva quantos cães eu tinha, para ela mesma ter a chance de me dizer que tinha sete, alguns dos quais colhidos na rua. E falava isto como quem, prazerosamente, em breve iria ter setenta.
Mas entre as consequências de ter cães, está a ressocialização dos humanos. Exato. Os animais ajudam os humanos a se ressocializarem. Vejo isto aqui pelas calçadas de Ipanema e Leblon. Como os proprietários de cães se param nas ruas e de alguma maneira também se cheiram socialmente, havendo casos, não poucos, de acasalamentos também de donos. E falam de seus cães como se falassem de filhos e netos. Talvez até com mais carinho. Pois os animais, embora tenham a tendência a assimilar características de seus donos são menos exigentes e em muitos casos, mais gratificantes que os humanos.
A comunidade dos que amam cães tem algumas características próprias. É possível que sejam semelhantes à irmandade dos que amam cavalos, gatos… e pessoas. São nichos de afeto dentro da vida. Já foi constatado que o contato físico com alguns animais, melhora nossa saúde. Acho que muitas pessoas teriam uma cura psicanalítica mais barata se adotassem certos tipos de cães, mesmo porque eles se parecem com os psicanalistas, não falam, e podem nos fazer companhia mais do que uma sessão de 50 minutos. Assim como há colecionadores de selos e esperantistas, os proprietários de cães constituem um mundo à parte, e sendo em maior número que aqueles, na verdade, pode-se dizer que eles é que são propriedades de seus cães. Tive disto a prova real, quando telefonando para uma clínica de cães para marcar mais uma vacina, ouvi a moça do lado de lá me perguntar, quando disse o meu nome :- “Affonso, de que cachorro?”.
Quer dizer, assim como o Sérgio Buarque de Hollanda, historiador famosíssimo dentro e fora do Brasil dizia que um dia teve que se defrontar com o fato de que as pessoas o identificavam simplesmente como “o pai do Chico”, tive que chegar a essa altura da vida para ser o pertencimento de meus cães. Talvez isto não seja tão mal, pois foi assim que Francisco chegou à santidade. De resto, isto não me desagrada. Melhor pertencer a alguns cães que a certos credos e partidos.


Livro: Tempo de delicadeza, pgs. 138 -140.

Foto de Ana Raquel França.
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segunda-feira, 8 de junho de 2015

A casa grande - Mário Quintana


...mas eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-água
com o telhado descendo logo após as fachadas
só de porta e janela
e que tinham, no século, o carinhoso apelido
de cachorros sentados.
Porém nasci em um solar de leões.
(...escadarias, corredores, sótãos, porões, tudo isso...)
Não pude ser um menino de rua...
Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá fora.
A casa era maior do que o mundo!
E até hoje
- mesmo depois que destruíram a casa grande –
até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos...
Livro: Mario Quintana de Bolso - Rua dos Cataventos e outros poemas
p. 109