quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

MAR-CELLO

 Quem é este senhor que vez ou outra me liga em um

dia de semana comum e tem novidades para me contar?

É muita boniteza no que conta, sempre descobre algo

que merece ser partilhado com alegria.

 

Nunca comunica algo ruim, sempre aponta um fato,

uma descoberta de algum(a) autor(a) ou descobertas inusitadas

da ciência.

 

Comunica-se quando descobre um livro de Bartolomeu Campos de Queirós

na biblioteca de sua cidadezinha do interior;

ou a mais nova descoberta da psicanálise, do que aprende

em sala de aula, do que aprende com as pessoas,

Pede com sincera humildade que eu aprove um texto recém escrito.

Ele sempre agradece a recíproca e nos faz acreditar que trazemos outra

grande novidade.

Sou capaz de imaginar que ele já sabe, mas, gentilmente diz

que não sabe, só para não nos furtar da alegria da partilha.

 

Que novidade singular me traz este senhor?

Quão ímpar é a forma singela que se comunica,

engrandecendo meu espírito cansado de tantas outras

notícias que me desanimam fortemente.

 

Assim deveria ser uma amizade, cheia de boas novas,

que nos fazem acreditar que a vida pulsa entre palavras, versos, e

livros esperam pacientemente por nossa leitura


Penélope B.


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Estudo das nuvens


 

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Foto autoral

                                                PAZ 



 


 

"Para o aniversário de uma donzela"


Não temas, donzela, fazer teus anos,
que quando os celebras, já estão feitos.
O tempo não passa para frente, mas para trás.
Poucos dão-se conta deste jeito

E que o saibas agora (se não o sabias)
é privilégio dos belos mas discretos.
Assim és tu: na tua discreta beleza
e na tua bela discrição que, dia após dia,

enches tua casa de vida, de vida teu coração.
Todos à tua volta respiram o ar que faz
com que alimentes quem contigo veio viver.

Vejo em seus rostos o bem suave e constante
que distribuis, sem o saberes. Se não tens planos,
não temas, pois: celebra (sem bolo ou festa) e sê.

B.C.

(01 de julho de 2010, para Ana Raquel, ouvindo a bagatela nº 1, opus 126, de Beethoven)




Preso, o silêncio fala.


Solto, como o passarinho,
cala, e por isso, canta.
Bate as asas contente
e, à volta da gente,
parece que dança.
Sou contra engaiolar passarinho
e queria, no entanto,
criar o silêncio, atraído
por causa das flores
do tempo perdido
em frente aos mares.
Se meu jardim é pobre,
sento-me, fecho os olhos
e vejo seus sons: voo
e na volta torno a ser
eu, a teu lado, somente.

B.C. 26.10.09





Sóis (Sós)

 

Sóis (Sós)

O sol um dia apagará:
para que ter filhos, então?
A terra esfriará, sem luz e vida:
para que acordar toda manhã?

Nosso sistema, tudo que é ordem
desfaz-se lenta, silenciosamente,
num movimento de permanente expansão.
Há um trágico destino que nos aguarda,

Certo como este instante, mais certo
que as horas de nossas existências.
Para que respirar e prosseguir?

"Ah, doce bem!", respondes, "porque sóis há, como eu e tu,
feitos de amores à nossa volta! Porque o amor, absurdo,
Alimenta-nos, eternamente, de luz, sem jamais nos deixar sós!"

(Calo-me, ante tanta fé, e quebro o soneto, faço emenda.
Nada de mais forte, não há maior sorte, que contigo contar:
fecho os olhos e sinto teu calor, expando-me e sou.)




segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Reflexões sobre a pandemia a partir do texto de Amyr Klink

Eu não sei se já partilhei com vocês que gosto de livros e filmes de guerra, assisto todos, muto me interessa a resiliência, tema essencial para quem trabalha com psicologia. Ter trabalhado muito anos lidando com pessoas em situações de extrema de vulnerabilidade, me permitiu viver nesta linha de fronteira e compreender, como uns são mais resistentes do que os outros diante do caos. Que linha tênue os separa...? 

Todo o mês de janeiro leio um livro de Amyr Klink, há que não considere os livros dele literatura literária, eu acho uma ótima leitura, aprendo muito sobre o mar, sobre limites, ecologia e enfrentamento da solidão.

O último que li foi “Não há tempo para perder”, na p.129 ele escreve assim: 

Já passei por muitas crises. Não apenas em alto mar. Como tudo mundo vivi situações de intensa tristeza, ou períodos mais prolongados de dificuldades financeiras, enfrentando problemas pessoais e familiares. São nesses momentos de extremas agonia que é mais difícil e necessário não perder o controle da situação. Ao tentar sair da crise podemos aguçar nossa criatividade. Existem inúmeros exemplos de surtos de criação artística, científica, em momentos de opressão econômica ou política, como nos anos 1970, quando a música popular brasileira deu um salto de inovação para superar a censura imposta pela ditatura militar. Em momentos terríveis, em que você precisa inventar uma solução, você inventa. 

 .... 
Ah, mas é preciso muito equilíbrio emocional para superar a crise, todo mundo fala e nos perguntamos também. Ainda mais quando enfrentamos a ruína das instituições de um país, seus valores morais e institucionais, se desequilibrando, caindo aos pedaços. Não acredito na eficiência de uma artificial preparação para obtenção desse equilíbrio emocional – você o adquire, na verdade, preparando-se de forma consistente e objetiva para os problemas que sempre estão por vir. Pode ser que se surpreenda encontrando capacidades que nunca imaginou ter. 

Qual a capacidade que encontrou durante este tempo de pandemia?



quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O livro dos abraços - Galeano

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!” (Trechos de: O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano)