quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Voo



"Somos assim:
Sonhamos o vôo
Mas tememos a altura.
Para voar
É preciso ter coragem
para enfrentar
o terror do vazio.
Porque é só no vazio
que o vôo acontece.
O vazio é o espaço da liberdade,
a ausência de certezas.
Mas é isso que tememos:
o não ter certezas.
Por isso trocamos o vôo
por gaiolas.
As gaiolas são o lugar
onde as certezas moram."
("Os irmãos Karamazov" - Fiódor Dostoiévski)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Carta aos Diretores de Asilos de Loucos - Antonin Artaud


Senhores:

As leis, os costumes, concedem-lhes o direito de medir o espirito. Esta jurisdição soberana e terrível, vocês a exercem segundo seus próprios padrões de entendimento.

Não nos façam rir. A credualidade dos povos civilizados, dos especialistas, dos governantes, reveste a psiquiatria de inexplicáveis luzes sobrenaturais. A profissão que vocês exercem esta julgada de antemão. Não pensamos em discutir aqui o valor dessa ciência, nem a duvidosa existência das doenças mentais. Porém para cada cem pretendidas patogenias, onde se desencadeia a confusão da matéria e do espirito, para cada cem classificações, onde as mais vagas são também as únicas utilizáveis, quantas tentativas nobres se contam para conseguir melhor compreensão do mundo irreal onde vivem aqueles que vocês encarceraram?

Quantos de vocês, por exemplo, consideram que o sonho do demente precoce ou as imagens que o perseguem são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreende ver até que ponto vocês estão empenhados em uma tarefa para a qual só existe muito poucos predestinados. Porém não nos rebelamos contra o direito concedido a certos homens - capazes ou não - de dar por terminadas suas investigações no campo do espirito com um veredicto de encarceramento perpétuo.

E que encerramento! Sabe-se - nunca se saberá o suficiente - que os asilos, longe de ser "asilos", são cárceres horríveis onde os reclusos fornecem mão-de-obra gratuita e cômoda, e onde a brutalidade è norma. E vocês toleram tudo isso. O hospício de alienados, sob o amparo da ciência e da justiça, è comparável aos quartéis, aos cárceres, as penitenciarias. Não nos referimos aqui as internações arbitrárias, para lhes evitar o incomodo de um fácil desmentido. Afirmamos que grande parte de seus internados - completamente loucos segundo a definição oficial - estão também reclusos arbitrariamente. E não podemos admitir que se impeça o livre desenvolvimento de um delírio, tão legitimo e lógico como qualquer outra serie de idéias e atos humanos. A repressão das reações anti-sociais, em principio, è tão quimérica como inaceitável. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vitimas individuais por excelência da ditadura social. 

E em nome dessa individualidade, que è patrimônio do homem, reclamamos a liberdade desses forcados das galés da sensibilidade, já que não se está dentro das faculdades da lei condenar à prisão a todos que pensam e trabalham. Sem insistir no caráter verdadeiramente genial das manifestações de certos loucos, na medida de nossa capacidade para avalià-las, afirmamos a legitimidade absoluta de sua concepção da realidade e de todos os atos que dela derivam.

Esperamos que amanha de manha, na hora da visita medica, recordem isto, quando tratarem de conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais - reconheçam - só tem a superioridade da forca.

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)


Foto

Milan Kundera




"Depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, esse corpo o inquieta menos. Atualmente, cada um de nós sabe que a alma nada mais é que a atividade da matéria cinzenta do cérebro. A dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos; hoje isso é um preconceito fora de moda que só nos faz rir.
Mas basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça."
Milan Kundera - A insustentável leveza do ser

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Casa e existência - Ana Raquel de Oliveira França



Casa e existência

Ana Raquel Oliveira França

Toda casa é reflexo de nossa existência
Ela reflete nossos sonhos,
nossa esperança em relação a vida
nossa busca por um lugar melhor,
nosso mundo interno.
Em cada canto revela um segredo de nossa existência.
cantos do religioso,
cantos ligados a nossos hábitos alimentares,
cantos que abrandam nosso cansaço,
cantos que expressam nossos hábitos de higiene,
nossas paixões, nossos vícios, nossas cores prediletas,
cantos que nos remetem a lembranças de viagem,
cantos de fotos de quem habitam em nossos corações.

Toda casa é reflexo da nossa existência.
Ela reflete nosso gosto, nosso estilo de vida,
O que lemos,
o que pensamos é revelado nas  paredes, nos quadros,
nos adornos que coabitam neste espaço.
No cuidado que, supostamente, destinamos a ela e aos outros.

Tem casa que nos acolhe como o abraço de quem ama,
Tem casa que nos enche os olhos de verde, de calma, de desejo de ficar,
Outras nos afastam que ausência de significados.

Toda casa é reflexo de nossa existência.
Ela revela como vive seus moradores,
se a existência é organizada e em comunidade,
se vivem em harmonia ou disputam espaços.

Nossa casa nos revela,
Revela se cuidamos dos recursos naturais,
da água, da luz, do solo, das  plantas
e se estamos integrados não só a este espaço,
mas a relação que temos com o cosmos,
com a terra que nos abriga.

Tudo se integra, tudo nos revela ...

Então, olhe ao seu redor,
veja como você está diante da vida...
Não precisa ir muito longe, pare, contemple
e reflita sobre  o tempo que você destina a esse mundo.

Ainda há tempo para arrumar a casa
Limpar os porões,
os sótãos,
as paredes,
Os espaços que abrigam nossa existência.

Toda casa é reflexo de nossa existência.

04.07.14

terça-feira, 3 de junho de 2014

Buscar a leveza



 
Bruno Cartusiensi
 
Para buscar a leveza
Basta entregar-se.
Há paixões e montes de alteza
Tal qual o amar a si
 
através de quem se ama;
esquecer de si por quem se ama;
perder-se de si em quem se ama.
Leva-me, peço-te, e deixa-me
 
levar-te em mim. Assim, talvez a
tua alma não canse no fim
e sobrevivamos juntos ao fogo
 
que crepita como se não houvesse
gravidade. Ele sobe, como o ar,
sem perder a ardidez: leva-me e arde!

domingo, 1 de junho de 2014

Meu jardim ... Vander Lee



Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores 
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores 
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores 
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho 
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho

Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho 
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho 
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

Link: http://www.vagalume.com.br/vander-lee/meu-jardim.html#ixzz33QQvbKUA

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Reflexões por Bartolomeu Campos de Queirós

Que sensatez...
Reflexões de Bartolomeu Campos de Queirós (Papagaios-MG,  1944 - 2012)
Meu poeta predileto, como pode alguém escrever por mim?

Construir o mundo com letras

O meu avô brincava muito comigo usando as palavras. Ele escrevia “azul” e me pedia para escrever outra palavra na frente. Eu escrevia “preto”. Ele falava: “O azul hoje é quase preto”. Ele fazia uma frase usando as duas palavras. Eu ficava incomodado como ele, com toda a palavra, dava conta de fazer uma frase. Com duas palavras, construía uma oração. A metáfora é muito interessante para o escritor. A metáfora é onde o escritor se esconde e põe asas no leitor. Pela metáfora, eu me escondo, mas ao mesmo tempo ponho asas no leitor. Vai aonde você quiser. Você está livre para romper com tudo. Acho que o leitor é tão criador quanto o escritor. O leitor cria muito. É o que o Umberto Eco fala — a estrutura ausente na obra. Você gosta de uma obra não pelo que está escrito, mas pelo lugar que ela o levou a pensar. Isso é muito interessante. Michel Foucault fala que o que lemos não é a frase que está escrita. Lemos o silêncio que existe entre as palavras. É ali que a literatura se faz. Vou falar bem francamente. Hoje, chego à conclusão de que escrevo porque quero dizer umas coisas e acho a palavra oral muito perigosa. Escrever é mais fácil do que falar. Quando escrevo e não gosto do texto, eu o rasgo. Jogo fora, apago, deleto, sumo com aquilo. Mas quando falo uma coisa errada, não recolho a palavra nunca mais. Isso me incomoda muito. Sou extremamente silencioso em minha natureza. Tenho muito medo da palavra oral. Sinto muitas vezes que as palavras me ferem ou eu firo alguém com essa palavra. Não recolho nunca mais essa palavra que cai no ouvido do outro. Talvez escreva por medo da fala.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

O apanhador de desperdícios - Manoel de Barros


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Alma minha gentil, que te partiste...




"Alma minha gentil,que te partiste
Tão cedo desta vida,descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo,onde subiste
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor a dor que me ficou
Da mágoa,sem remédio,de perder-te.


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luís de Camões 

sábado, 15 de março de 2014

Ah! Mar - Bartolomeu Campos de Queirós





Ah! Viver entre montanhas é estar perto do céu e andar sobre 
trilhas contornando abismos. 
Nas montanhas, a voz esbarra nos montes e volta eco em outro tom.
Há que ter, ainda uma andar paciente, um olhar curto, 
pois o horizonte é perto e o silêncio um companheiro solitário dos viajantes. 
E quando se vence uma altura, descortinam-se mais espinhaços. 
Longe do mar inventam-se oceanos.
Ah! Mar , pag. 07

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Chá com Bartolomeu Campos Queirós


Fragmento do Livro de Bartolomeu Campos de Queirós, "O livro de Ana".

(Papagaios- MG, 25 de agosto de 1944 - Belo Horizonte, 16 de janeiro de 2012)


Maria, ainda menina e sem conhecer as letras, brincava de pensar as flores antes do nascimento. Imaginava o mel na doçura dos voos das abelhas. Sonhava a música na garganta dos pássaros. Outras vezes, Maria olhava para o depois do horizonte, sem medo do eterno. Ela desconhecia o tamanho do infinito, mas sabia do milagre colorindo até as asas da borboleta. Em segredo, a Menina via o mundo como um indecifrável mistério. 
Enquanto Maria brincava de pensar, os olhos de Ana decifravam o caminho que as letras diziam. Como uma fila de pequenas formigas buscando o açúcar, também as palavras trazem chaves. Destrancam destino, abrem história, libertam direções. E mais, fazem brotar a primavera mesmo se o tempo é de inverno.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Ano Monet


Que seja um ano inesquecível, cheio de aprendizagens e que eu seja ponte e absolutamente vibrante como as cores de Monet...


The Japanese Bridge (The Bridge in Monet's Garden)  
Claude Monet. Artist: Claude Monet. Start Date: 1895. 
Completion Date:1896. Style: Impressionism