sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos.

Pela 1,30 hora da madrugada, soa a campainha do convento. Um velhinha está na porta, Segura uma lanterna acesa. Toda envolta num grosso manto cinza. Trazia um pequeno pacote. Disse: “É para o Paterle (padrezinho) estrangeiro que estava na missa do galo”. Fui chamado. Entregou-me o pacote, todo enfeitado, com breves palavras: “ O Sr. está longe de sua pátria. Distante dos seus. Aqui, hoje é Natal”. Apertou-me fortemente a mão e se afastou na noite abençoada pela neve.

No qu...arto, sozinho, enquanto ruminava imagens do Natal em casa, muito do estilo como este, mas sem a neve, desfiz, com reverência, o pacote. Era uma grossa vela. Vermelho-escura. Toda trabalhada. Com um grosso suporte de metal. Uma luzinha iluminou a noite da solidão. As sobre se projetaram trêmulas e longas na parede. Não me senti mais só. Fora da pátria havia acontecido o milagre de todo o Natal: a festa da fraternidade de todos os homens. Alguém compreendeu a mensagem do Menino: fez do estranho um próximo e do estrangeiro um irmão.

Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos.
Leonardo Leonardo Boff

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fragmento do Livro da Ana - Bartolomeu Campos de Queirós








“Entre o adeus do sol e o boa-noite da lua, Ana se assentava com o livro aberto sobre os joelhos. Nesta hora, um sossego mora no céu e visita a vida. Não há tristeza. Anjos voam acendendo estrelas. Só o silêncio vê. E eles cantam. A canção é leve, acompanhada de flauta, violino e cítara. Só o coração escuta. Mas Ana, por respirar a emoção da leitura, tudo via e tudo escutava. Ao ler, também se vê e se escuta”.

Bartolomeu Campos de Queirós – O livro de Ana

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Eu voltarei - Cora Coralina



EU VOLTAREI
Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.
Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.
Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.
Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
E eu morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.
Eu voltarei...