sábado, 3 de outubro de 2020

Sessão de terapia


Agora dei pra sonhar com mortos, com meus mortos todos! Aguns vêm abertamente e se fazem de vivos: conversam, tomam café, dão conselhos… Só quando acordo lembro que aqui já não estão.
Outros são menos atrevidos, chegam timidamente, com jeito de quem não está a vontade…
Inda outro dia acordei com um deles puxando meu pé. "Virgem" - pensei - "é agouro...Não me bastasse o vírus, agora, nem dormir direito eu posso".
Penso no livro de Gabriel Garcia Marquez, "Crônica de uma morte anunciada". Pra completar, os galos aqui em casa deram pra cantar fora de hora… A finada Rosa dizia que galo quando canta assim, coisa boa não anuncia…
Agora, falando contigo, tenho o corpo gelado. Não, não estou morto, o gelo é da ansiedade, mesmo… Dia desses liguei para minha irmã: "mana, ontem sonhei na casa de fulana (uma senhora já falecida)". A mana respondeu: "eu sonhei foi com tio Belo, me abraçando". Tio Belo?! É um dos inúmeros tios, também já ido. Suspirei de alívio e pensei "se for agouro, ao menos sei que não vou sozinho".
Acho que a morte só é mais tenebrosa porque é algo que encaramos sozinhos, sem companhia...A morte é a solidão de nossa solidão… Não aceita parceria: é só ela e cada um de nós… Solitariamente… Tá aí uma das dificuldades de sua aceitação: esse não respeito da morte pela nossa condição de animais sociais e, portanto, gregários...Fosse algo que pudéssemos encarar acompanhados, talvez não sofressemos tanto…Mas não, cada um tem a sua morte. Algumas mais pesadas, outras nem tanto.
Eu sonho é mesmo em ser agraciado com a "morte dos justos", esta que nos leva dormindo, bem no meio de um sonho bom. Sempre invejei os que assim morriam, só não sabia mesmo era a denominação adequada, até que um dia, após narrar para minha manicure a morte de uma senhora querida, ela bate com as duas mãos e exclama alto: "essa ganhou na loteria, morreu dormindo, a morte dos justos"…Depois desse dia o tema virou mote de minhas orações: "que eu seja agraciado, Senhor, com a morte dos justos!" Mas sempre acrescento: "e que ela demore a chegar"…
Para falar da morte os gregos inventaram o mito das moiras, fiandeiras que teciam a vida de deuses e homens. Eram elas três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio de nossas vidas. Essa imagem da vida sendo tecida sempre me fascinou… Nós somos a fiandeiras e os fios... Viver é tercer-se, se construir enquanto se constrói o mundo, com materiais pelo sujeito nunca escolhidos…. Ocorre que o desenho nunca ficará completo, pois em algum momento o fio que somos nós, será cortado...Então, não seremos, teremos sido.
Falando assim, vou percebendo que a morte talvez não importe tanto, que o importante mesmo seja o que estamos a fazer de nossas vidas...O desenho... Será que é isso que os meus mortos estão me perguntando???
Marcelo Saturnino da Silva
Clévia Cunha de Carvalho, Rita Rocha e outras 55 pessoas
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Agora dei pra sonhar com mortos, com meus mortos todos! Aguns vêm abertamente e se fazem de vivos: conversam, tomam café, dão conselhos… Só quando acordo lembro que aqui já não estão.
Outros são menos atrevidos, chegam timidamente, com jeito de quem não está a vontade…
Inda outro dia acordei com um deles puxando meu pé. "Virgem" - pensei - "é agouro...Não me bastasse o vírus, agora, nem dormir direito eu posso".
Penso no livro de Gabriel Garcia Marquez, "Crônica de uma morte anunciada". Pra completar, os galos aqui em casa deram pra cantar fora de hora… A finada Rosa dizia que galo quando canta assim, coisa boa não anuncia…
Agora, falando contigo, tenho o corpo gelado. Não, não estou morto, o gelo é da ansiedade, mesmo… Dia desses liguei para minha irmã: "mana, ontem sonhei na casa de fulana (uma senhora já falecida)". A mana respondeu: "eu sonhei foi com tio Belo, me abraçando". Tio Belo?! É um dos inúmeros tios, também já ido. Suspirei de alívio e pensei "se for agouro, ao menos sei que não vou sozinho".
Acho que a morte só é mais tenebrosa porque é algo que encaramos sozinhos, sem companhia...A morte é a solidão de nossa solidão… Não aceita parceria: é só ela e cada um de nós… Solitariamente… Tá aí uma das dificuldades de sua aceitação: esse não respeito da morte pela nossa condição de animais sociais e, portanto, gregários...Fosse algo que pudéssemos encarar acompanhados, talvez não sofressemos tanto…Mas não, cada um tem a sua morte. Algumas mais pesadas, outras nem tanto.
Eu sonho é mesmo em ser agraciado com a "morte dos justos", esta que nos leva dormindo, bem no meio de um sonho bom. Sempre invejei os que assim morriam, só não sabia mesmo era a denominação adequada, até que um dia, após narrar para minha manicure a morte de uma senhora querida, ela bate com as duas mãos e exclama alto: "essa ganhou na loteria, morreu dormindo, a morte dos justos"…Depois desse dia o tema virou mote de minhas orações: "que eu seja agraciado, Senhor, com a morte dos justos!" Mas sempre acrescento: "e que ela demore a chegar"…
Para falar da morte os gregos inventaram o mito das moiras, fiandeiras que teciam a vida de deuses e homens. Eram elas três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio de nossas vidas. Essa imagem da vida sendo tecida sempre me fascinou… Nós somos a fiandeiras e os fios... Viver é tercer-se, se construir enquanto se constrói o mundo, com materiais pelo sujeito nunca escolhidos…. Ocorre que o desenho nunca ficará completo, pois em algum momento o fio que somos nós, será cortado...Então, não seremos, teremos sido.
Falando assim, vou percebendo que a morte talvez não importe tanto, que o importante mesmo seja o que estamos a fazer de nossas vidas...O desenho... Será que é isso que os meus mortos estão me perguntando???
Marcelo Saturnino da Silva
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