sábado, 3 de outubro de 2020

Sessão de terapia II

Sessão de terapia II
É verdade, acredite. Eu não sei andar de bicicleta, também não sei nadar e nunca trepei numa árvore.
Sim, não faço muita questão por nenhuma dessas estripolias. Minto, ainda hoje sonho em ter coragem de pelo menos entrar numa piscina… O mar, ah o mar… Quando me perguntam se gosto de praia, eu digo *gosto mais a noite*... É que a noite as pessoas ficam nos calçadões ou na areia, esperando a lua…
É uma boa hipótese essa que você levanta...Talvez seja isso, talvez tenha aprendido a não gostar, a desgostar dessas coisas de naturais infâncias…
Outro dia me matriculei em aula de natação, mas chegando o dia marcado, a coragem foi pouca. Você foi? Eu também não…
[Silêncios]
Se eu posso levantar o volume? Vou tentar...
Tava pensando na vez em que a diretora de uma escola, em minha cidade, me chamou para uma palestra com os jovens. O tema? "A importância da leitura!" Acho que ela não gostou muito do que falei, mas falei: falei que eles tivessem coragem de viver a vida, que buscassem andar de bicicleta, nadar, trepar em árvores...Pois são coisas que devemos fazer por nós mesmos, fazer com o corpo todo, em carne e osso, e não apenas montado em algum personagem literário, como eu fiz...
No final, acho que os jovens até gostaram de ouvir aquilo… Bom, não sei. Ao menos espero que tenham gostado. Eu gostei de dizer o que disse..
[Silêncios]
Onde estou?
Você quer mesmo vir comigo?
...
Estou na escola e tem um pátio grande de areia, onde na hora do recreio as crianças jogam bola.
Agora há um jogo acontecendo. Crianças correndo de um lado para outro, atrás de uma bola. E gritam, e se xingam e se abraçam quando uma delas conseguem marcar um gol.
Às vezes a bola cai no quintal de dona Lourdes, a mulher que faz flor. O jogo para até que alguém vai lá e traz a bola de volta. A festa recomeça.
Quem sou eu, aí? Não sou o goleiro, nem um dos jogadores, nem o menino que fica com o apito. Sou a criança que passa o recreio assistindo o jogo, aquela que quando indagada por uma das professoras *você não vai jogar?* Sempre respondia: *não, eu não gosto!"
[Silêncios]
Por que você me faz perguntas difíceis?
Não é que eu não gostasse, eu acho que tinha medo...Minha mãe dizia que eu não devia jogar bola, que eu poderia cair, quebrar uma perna… Ah! Lembrei a primeira vez que entrei na igreja, com minha mãe...Passei a missa toda de olhos grudados na grande imagem do Cristo crucificado. Não conseguia tirar os olhos do vermelho que parecia sangue a escorrer de ambos os joelhos da imagem. Lembro que ao final da missa, perguntei a minha mãe se Ele também tinha jogado bola…
[Silêncios]
Sempre que você me pergunta isso, é que meu tempo acabou...Estou bem, te vejo próxima sessão.
Marcelo Saturnino da Silva

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