domingo, 20 de março de 2022
José - Bartolomeu Campos de Queirós
José
Antes da madrugada, quando tudo - casa, árvore, memória - flutua entre poeira de neblina, prata e frio, José se enveredava pela floresta para o corte da madeira. Ao ritmo do cajado e das sandálias, entre ruídos de outono e gravetos, seu espírito vinha se debruçar em seus lábios e resmungar matinais. Preces que atravessando pássaros acordavam cores no sono do horizonte. José despertava o mundo.
Se resinas escorregavam das achas, cantando aromas, José verdejava em orações. Se fibras do lenho insinuavam desenhos de planície e distâncias, ele se detinha para melhor conter o encantamento. E ao contemplar as mãos ásperas pelo martelo, plaina, goiva, José se via forte para servir em trabalho.
Assim manso, a paz rabiscava em seu rosto breves rugas em doçura e fortaleza. Ungido pelo suor, José se recolhia em solitário silêncio para melhor atotar o destino.
Um dia, *enquanto repousava entre sombra e cansaço, posou-lhe na mão, trazida sem acaso, uma semente grávida* - ventre com fruto e futuro. José ao se refazer do anúncio, soube haver um pai anterior a todo nascimento. Nesse meio-dia *brotou em seu cajado um ramo de lírios*, quase que preludiando posteriores admirações.
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