Amyr Klink
Do sul do Paratii, do porão, vinha um barulho novo. Nas últimas semanas eu me
tornava um verdadeiro caçador de sons. E caçá-los apenas não bastava, era
preciso identificar sua origem. Pequena paranoia marinheira? Talvez. Mas nenhum
barulho me incomodava se eu soubesse do que se tratava. Uma garrafa de azeite
batendo na cozinha, uma lata de óleo no porão, o som de cuíca do pé do mastro –
diferente do grunido externo do mesmo pé. As “vozes” das buchas do leme,
inaudíveis do lado de fora, dentro lembravam um chá de animadas senhoras
conversando. Toda sorte de sons havia agora.
Desci para o salão, tateando os
cantos tentando encostar o ouvido nas paredes, com as luvas penduradas nos
dentes. Logo descobri que o sino metálico e irregular que batia estava na
famosa caixa de sucatas; duas barrinhas de inox rolando para os lados a cada
tombo de uma onda.
Enquanto voltava a travar a caixa
no fundo com uma das mãos apoiada na estante, dei com os olhos num livro ainda
virgem. Título: Sauvé. Sim senhor, Salvo.
Presente do Júlio meses antes, e que por falta de tempo não abriria. Puxei o
livro e subi para a mesa de navegação. E não dormi mais.
Maldita ideia, abrir o livro. Era
o relato de sobrevivência de um dos resgates mais espetaculares já ocorridos no
South-ern Ocean, durante a regata de volta ao mundo solitário – a Vandée Globe –
terminada no ano anterior. Essa prova realizada em solitário, sem escalas, é ,
de longe, o desafio esportivo mais extenso e impressionante que conheço. No Brasil, infelizmente, país de esporte
fechados em alambrados, não se noticiam provas como essa, em que a pista de
corrida é o globo. Onde a resistência e a competência são testadas não por
noventa minutos, mas por quatro meses seguidos, vinte e quatro horas por dia,
no mais respeitável de todos os oceanos. Sempre fui fascinado por essas provas
longas, em que, além da resistência, há o desafio da gestão, da estratégia, e
do respeito aos materiais e ao meio.
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