Autor: Affonso Romano de Sant´Anna
Devo confessar que os cães entraram muito tarde em minha vida.
Antes olhava-os com distante complacência. Não os hostilizava, mas
também não sucumbia à sua sedução. Mas as coisas começaram a mudar há
algum tempo. Talvez seja aquela coisa da sabedoria popular que diz, que
quanto mais a gente conhece os humanos mais gosta dos animais. Agora,
por exemplo, nesse exato
momento, uma linda yorkshire com nome de fada escocesa - Pixie, veio enroscar-se nos meus pés, enroscar-se nas frases dessa crônica.
momento, uma linda yorkshire com nome de fada escocesa - Pixie, veio enroscar-se nos meus pés, enroscar-se nas frases dessa crônica.
Da infância, além dos cães da
vizinhança ficou-me na memória apenas aquele cão Veludo, num poema que a
gente, entre lágrimas, ouvia nos concursos de declamação: “Eu tive um
cão, chamava-se Veludo /Magro, asqueroso, revoltante, imundo/ Para dizer
numa palavra tudo/ Foi o mais feio cão que houve no mundo”. Não me
lembrava quem era o autor e agora, uma amiga, daquele tempo em que a
“escola era risonha e franca”, me traz de volta a cópia do mesmo. Mas o
que interessa é que o poema contava de maneira patética como aquele
cão feíssimo abandonado por alguém na hora da partida deu provas de
amor ao dono até à morte.
Outro dia estava em casa de
amigos e quando me dei conta, a noite toda tinha se escoado com as
pessoas contando só estórias de fabulosos, inteligentíssimos e amorosos
cães que tiveram. Claro, tem sempre alguém que diz, que amou tanto o
seu cão, que enviuvou-se dele para sempre e nunca mais terá outro.
Passei, portanto, a observar a sociedade canina com admiração
crescente, o que, repito, não posso dizer das sociedades humanas. Já
tinha me dado conta que um cão lá em minha casa, em Friburgo, era
vidrado nos adágios de Beethoven e ficava felicíssimo ouvindo o Concerto
para violino de Mendelssohn Já essa cachorrinha aqui surpreendia-a
várias vezes vendo a novela das oito. Outro dia, no veterinário, a dona
de um poodle, me perguntou ostensiva quantos cães eu tinha, para ela
mesma ter a chance de me dizer que tinha sete, alguns dos quais
colhidos na rua. E falava isto como quem, prazerosamente, em breve
iria ter setenta.
Mas entre as consequências de ter cães,
está a ressocialização dos humanos. Exato. Os animais ajudam os humanos a
se ressocializarem. Vejo isto aqui pelas calçadas de Ipanema e Leblon.
Como os proprietários de cães se param nas ruas e de alguma maneira
também se cheiram socialmente, havendo casos, não poucos, de
acasalamentos também de donos. E falam de seus cães como se falassem de
filhos e netos. Talvez até com mais carinho. Pois os animais, embora
tenham a tendência a assimilar características de seus donos são menos
exigentes e em muitos casos, mais gratificantes que os humanos.
A comunidade dos que amam cães tem algumas características
próprias. É possível que sejam semelhantes à irmandade dos que amam
cavalos, gatos… e pessoas. São nichos de afeto dentro da vida. Já foi
constatado que o contato físico com alguns animais, melhora nossa
saúde. Acho que muitas pessoas teriam uma cura psicanalítica mais
barata se adotassem certos tipos de cães, mesmo porque eles se parecem
com os psicanalistas, não falam, e podem nos fazer companhia mais do
que uma sessão de 50 minutos. Assim como há colecionadores de selos e
esperantistas, os proprietários de cães constituem um mundo à parte, e
sendo em maior número que aqueles, na verdade, pode-se dizer que eles é
que são propriedades de seus cães. Tive disto a prova real, quando
telefonando para uma clínica de cães para marcar mais uma vacina, ouvi a
moça do lado de lá me perguntar, quando disse o meu nome :- “Affonso,
de que cachorro?”.
Quer dizer, assim como o Sérgio Buarque de
Hollanda, historiador famosíssimo dentro e fora do Brasil dizia que um
dia teve que se defrontar com o fato de que as pessoas o identificavam
simplesmente como “o pai do Chico”, tive que chegar a essa altura da
vida para ser o pertencimento de meus cães. Talvez isto não seja tão
mal, pois foi assim que Francisco chegou à santidade. De resto, isto
não me desagrada. Melhor pertencer a alguns cães que a certos credos e
partidos.
Livro: Tempo de delicadeza, pgs. 138 -140.

Nenhum comentário:
Postar um comentário